Curitiba em tempos de celulóide
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Com lançamento nacional do filme O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, às 20 horas no Cine Ritz, tem início hoje o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba- FCVC. Desde a mostra de cinema latino-americana, realizada em meados dos anos 80, a cidade não sediava evento de maior projeção na categoria.
Até o dia 5 de maio o público terá oportunidade de assistir a outros sete longas-metragens, entre eles Ed Mort, de Alan Fresnot, também em estréia nacional, e mais 48 curtas, médias e vídeos, além de 17 trabalhos já premiados. Palestras e oficinas completam o roteiro de atividades.
O FCVC entra no cenário com alguns referenciais que não são encontrados nos demais festivais. Por exemplo a preocupação dos realizadores em dar apoio à formação dos jovens cineastas, e colocar numa categoria especial - hours concours - os filmes que são unanimidade e acabam abiscoitando os primeiros lugares.
Os filmes em 16mm e 35mm normalmente analisados como se fossem de categorias distintas, agora estão agrupados num mesmo nível. Acaba-se aquilo que o diretor Ruy Guerra chama de ditadura da bitola. Historicamente os de 16mm eram projetados em pequenas salas e não nos cinemas, como acontecerá em Curitiba. Para o FCVC está em julgamento a qualidade do filme e não a medida da bitola.
O interesse em fazer fervilhar idéias através de debates e, ao mesmo tempo, buscar a abertura de espaços para o surgimento de novos talentos vem em grande parte da diretora executiva e idealizadora do evento, Cloris de Souza Ferreira. Com experiências no passado em festivais de música clássica, ela trouxe ao cinema objetivos idênticos.
O Festival de Cinema e Vídeo é uma vitrine daquilo que vem sendo produzido mais recentemente - para a fase competitiva chegaram 180 fitas do Brasil e países vizinhos, todas rodadas a partir de 1995 -, mas ele não se encerra na mostra. Temos que trabalhar na raiz do processo criativo, suprindo a carência que existe na área do ensino de como fazer cinema e vídeo, afirma Cloris.
Explica-se assim a ênfase aos cursos que estarão acontecendo no período, todos com as inscrições esgotadas. São sete oficinas, que vão do som e mixagem à trilha sonora, mas além delas existem outros aspectos que precisam ser abordados.
Para isso foram programados encontros cujos temas tocam em assuntos como a lei dos curtas-metragens, que prevê a exibição dos trabalhos nacionais antes de um filme estrangeiro, mas que continua ignorada pela indústria. Outra questão é a co-produção entre brasileiros e produtores dos países do Mercosul.
ProgramaçãoO Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba estará ocupando o Cine Ritz nas mostras competitivas, de terça a domingo, sempre às 17h30 e 19h30. Eventos paralelos, como as palestras e debates, serão levados nos auditórios da Aliança Francesa e Instituto Goethe. Algumas sessões especiais ocorrerão no Cine Luz. A programação é extensa, incluindo até mesmo uma mostra paralela de filmes do diretor Rui Guerra.
Outra grande atração do festival será a exibição da comédia Bonequinha de Seda, do diretor Oduvaldo Viana, de 1935. O filme que há muito tempo deixou de ser visto nas telas brasileiras pelas más condições de conservação em que se encontrava, acaba de ser restaurado. É um sinal de que, se o castigado cinema nacional ainda não experimenta seus melhores dias, pelo menos dá mostras de que eles virão.


