CARNAVAL CURITIBA É O TÚMULO DO SAMBA? Arquivo FolhaCena de Carnaval de rua em Curitiba: festa que já foi animada no início do século hoje é desprezada pelos antifoliões que defendem a idéia de investir em outros eventosArquivo FolhaContraO publicitário Ernani Buchmann quer a abolição do Carnaval em Curitiba: ‘‘Trata-se de um fenômeno litorâneo’’Arquivo FolhaA favorNey Souza defende o Carnaval curitibano: ‘‘Ano passado levamos 50 mil pessoas para a avenida’’ReproduçãoCarnaval de rua em Curitiba no início do século: folia atraía multidões num tempo em que a TV não exibia a grandiosidade da festa no Rio Michele Muller De Curitiba A idéia de abolir o Carnaval curitibano tem crescido nos últimos anos. Os que são contra a festa alegam que, há muito tempo, a folia perdeu a graça na capital paranaense Há três anos, quando começou a esboçar a idéia de promover turismo cultural em Curitiba, a empresária Maria Cristina Andrade Vieira se deparou com números que não lhe deixaram dúvidas em relação à época em que o evento deveria ser realizado. Um estudo apresentado pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) mostra que 83% dos brasileiros que procuram agências de viagem no Carnaval optam por pacotes que os levem para longe da folia. Concluído o projeto – aprovado pela Lei Rouanet – Maria Cristina saiu em busca de patrocinadores que contribuíssem para transformar Curitiba na principal escolha turística dos antifoliões. Recebeu apoio de inúmeras entidades, mas apenas uma parte do valor total orçado teria financiamento garantido das empresas privadas. Passados alguns carnavais, a idéia continua na lista das principais empreitadas da empresária, que passou a buscar apoio financeiro em outras cidades. Um pouco mais enxuto que em sua versão original, o projeto hoje está orçado em R$ 180 mil – menos que a metade do dinheiro gasto pela prefeitura com a festa carnavalesca deste ano, na Avenida Cândido de Abreu. Esse valor inclui cachê e outras despesas de 1,3 mil artistas, que apresentariam peças teatrais, óperas, espetáculos de bonecos e shows de música instrumental em praças públicas e diversos pontos de grande movimento da cidade. Com o apoio da Associação Brasileira dos Agentes de Viagem (Abav), da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), da Associação Comercial do Paraná e de alguns hotéis, o turismo cultural incluiria estadia barata e promoções no comércio. ‘‘Queria fazer uma promoção parecida com essa que três shoppings estão realizando na cidade em parceria. A diferença é que o projeto inclui a divulgação desses descontos’’, explica Maria Cristina. Um dos principais defensores do investimento em atividades anticarnavalescas em Curitiba é o secretário do Estado de Esporte e Turismo, Ney Leprevost. Ele foi um dos primeiros a abraçar a idéia de Maria Cristina, até porque há um certo tempo vinha desenvolvendo uma proposta semelhante que nunca chegou a colocar no papel. ‘‘Quando descobri que ela já tinha registrado o projeto, me coloquei à disposição para ajudá-la. Curitiba tem tudo para atrair turistas que não gostam de Carnaval. E não são poucos. É raro ver pessoas com mais de 30 anos pulando atrás dos trios elétricos de Guaratuba’’, destaca. O secretário acredita que o valor gasto pela prefeitura este ano com a festa de Momo – R$ 400 mil – é o suficiente para que a folia curitibana possa continuar existindo e sirva de lazer para uma minoria. A estimativa da Fundação Cultural é de que cerca de 50 mil pessoas se dirijam à Avenida Cândido de Abreu. ‘‘Acho importante manter o evento somente porque atende pessoas da terceira idade, que passam meses trabalhando na confecção das fantasias. A prefeitura precisa gastar com projetos sociais, saúde e segurança pública. Não tem que ter essa visão paternalista e investir em festejos’’, opina. A solução para quem gosta do Carnaval, segundo ele, é passar o feriado nas praias. Quem divide essa idéia com o secretário é o publicitário Ernani Buchmann – famoso defensor da abolição da festa em Curitiba. ‘‘Trata-se de um fenômeno litorâneo. O mar deixa as pessoas com vontade de pular. Na capital, todos parecem estar sempre de paletó e gravata’’, argumenta. A antiga discussão sobre a validade da insistência em manter o Carnaval curitibano tem como base a nostálgica lembrança dos bailes e desfiles de escolas de sambas que levavam, da segunda metade do século passado até meados deste, milhares de pessoas às avenidas e clubes da cidade. ‘‘Só que naquele tempo’’, lembra Buchmann, ‘‘ninguém sabia como era o Carnaval em outros lugares, porque não existia televisão. As estradas também não ajudavam: levava muito tempo para se descocar de Curitiba até o litoral. Para se chegar no Rio de Janeiro era preciso um dia de viagem.’’ O investimento da prefeitura, segundo ele, ‘‘é dinheiro jogado fora’’. O publicitário defende que deveriam sair dos cofres públicos apenas verbas suficientes para se promover pequenos bailes na periferia da cidade. ‘‘Quem não vai ao litoral são pessoas de baixa renda, que moram em bairros pobres. Basta levar algumas festas a essas regiões, e ponto final.’’ O carnavalesco Ney Souza, vencedor de vários bailes cariocas, há algum tempo não passa o Carnaval em Curitiba. Ele concorda que o evento não é dos mais animados, mas acha que o maior problema está na falta de apoio e não no perfil da população. ‘‘Com dinheiro, poderíamos fazer uma festa à altura da que é realizada na Bahia e no Rio de Janeiro’’, diz. Para o presidente da Liga das Escolas de Samba, Saul D’Ávila, o Carnanal das ruas curitibanas só não existe para quem não participa dele. ‘‘Basta perguntar para as pessoas que falam mal se elas já ficaram alguma vez na cidade durante o feriado. Vão dizer que não. Então como podem saber se os festejos são fracos?’’, questiona. ‘‘No ano passado, conseguimos levar 50 mil pessoas para a Rua João Negrão. Isso é muita gente’’, completa.