O dinamarquês Jens Olesen, presidente da McCann-Erickson do Brasil, é o curador da mostra que reúne, em Curitiba, obras expressivas de um dos movimentos de arte mais importantes do mundo
Jens Olesen, curador e realizador da mostra do Grupo Cobra, instalada na Casa Andrade Muricy, em Curitiba, é o retrato perfeito daqueles que se entregam a uma paixão e a ela dedicam toda a sua vida. Presidente de uma das maiores agências publicitárias do País, a McCann-Erickson Brasil, ele consegue dar conta do seu trabalho e promover exposições dos artistas pelos quais é fascinado.
‘‘Tendo paixão, você sempre tem tempo’’, receita o empresário. Sob sua responsabilidade novas exposições desse histórico grupo acontecerão em 2001, no Japão, e em 2002 na China. Atualmente, a exemplo do que ocorre no Brasil, há uma coletiva no México. É claro que Olesen voará a esses locais para promover os eventos. Nada espantoso para este executivo que já percorreu mais de 40 países, difundindo e reafirmando a importância do nome Cobra.
Jens Olesen é um dinamarquês de 57 anos que em 1968 veio a São Paulo e ficou, encantado pelo burburinho da cidade e a beleza do País. Casou-se com uma brasileira, constituiu família, sem jamais afastar-se do fascínio das artes. Ele tinha sete anos de idade quando ganhou uma litogravura do pai. Foi seu presente de Natal e o autor era um dos artistas do Cobra. Começava ali, há meio século, uma paixão que até hoje mantém o mesmo vigor.
‘‘Sou colecionador do Cobra há mais de 40 anos’’, diz com evidente orgulho. ‘‘Tenho minha coleção na Europa e Estados Unidos e pequenas coisas no Brasil’’. Aberto às perguntas, fecha-se em copas quando é indagado sobre o número de obras de sua coleção. ‘‘Não vou falar; tenho algumas’’.
Quanto às 98 que ocupam os belos salões da Casa Andrade Muricy, afirma não saber qual o valor exato, mas o montante ultrapassa a US$ 100 milhões. Ao escolher os trabalhos procurou formar uma pequena retrospectiva, incluindo aí peças de um tempo anterior ao grupo, até chegar à fase posterior. Também não se preocupou em aglutinar telas e esculturas de acordo com a temática.
Opressão e esperança caminham juntas na mostra, como uma confissão dos artistas nos variados tempos de suas vidas. Eram todos muito pobres, passavam frio e fome, mas dos que sobreviveram à fase, vários ganharam reconhecimento mundial e hoje suas obras valem fortunas incalculáveis.
Porém, o tempo das vacas magérrimas guardou para a história casos de morte, motivados pela subnutrição transformada em tuberculose; uma pintura feita diretamente na madeira, pela falta de dinheiro do artista para comprar uma tela (Caos no Universo I e II, de 1944, de Pedersen), foi trocada por seis latas de sopa. Noutra feita houve a permuta de uma obra por três pacotes de cigarros, e ainda a venda de uma tela por dois dólares.
Na Pinacoteca de São Paulo, por onde passou a exposição, com maior número de artistas e trabalhos, mais de 100 mil visitantes estiveram no local. ‘‘O Cobra não morre. Este tipo de arte não morre nunca. Daqui a 500 anos ainda vai ter quem vai gostar’’, aposta o curador.

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