Cumplicidade se reflete nos figurinos de 'A Encarnação do Demônio'
Nove entre dez pessoas dirão que Audrey Hepburn é o exemplo máximo da moda no cinema, mas Alexandre Herchcovitch sabe que a alta-costura na tela não vive só do glamour da bonequinha de luxo. ''Não sei se algum filme de terror ganhou o Oscar, mas o figurino é fundamental na criação do clima.'' Pegue o exemplo de ''A Família Addams'' - ''Mesmo que não seja terror puro, o figurino da Mortícia foi uma coisa que marcou'', ele diz.
A proposta da produção de ''A Encarnação do Demônio'' era para que Herchcovitch fizesse as roupas de Zé do Caixão e também as das suas noivas e a da morte. As ''noivas'' são as mulheres que os capangas de Zé sequestram enquanto ele busca a parceira ideal para gerar o filho perfeito - obsessão que persegue o herói satânico desde os anos 60. A ''Morte'' é Geanine Marques, musa do estilista.
Ao contrário de outros criadores de moda, Herchcovitch se preocupa com a memória e mantém um acervo pessoal com suas criações antigas. As roupas das noivas foram retiradas de coleções darks do começo de sua carreira. O figurino do personagem de José Mojica Marins foi mantido, mas agora com acabamento superior. Não contou muito o fato de ele ser judeu e Zé do Caixão um personagem marcado pela repressão do cristianismo.
''Tenho idéias muito próprias sobre religião. Quando as pessoas começam a depender demais dela, alguma coisa está errada.'' Não houve problema nenhum em manter os signos, como a cruz invertida e o escaravelho, que tanto atraem Mojica. A cumplicidade entre ambos foi tão grande que Herchcovitch até fez uma ponta no longa. Aliás, não é a primeira vez que ele vai para a frente das câmeras, como ator.
Herchcovitch já fez novela, na Globo, com direito a texto decorado e não representando o próprio papel, em ''Desejos de Mulher''. Na ''Encarnação'', aparece logo no começo, depois que Zé do Caixão sai da cadeia. A câmera acompanha o personagem num passeio pela degradação da cidade grande. Passa por mendigos, crianças que cheiram cola e chega a uma rua povoada de travestis. Herchcovitch é um deles, com o amigo Johnny Luxo. ''A filmagem foi rápida. Demorou mais para montar a personagem, colocando as roupas, a maquiagem.''
Depois de ''A Encarnação do Demônio'' ele fez os figurinos do inédito ''À Deriva'', novo longa de Heitor Dhalia, de ''O Cheiro do Ralo''. A parceria com a O2 começou em ''Ensaio Sobre a Cegueira'', que Fernando Meirelles adaptou do romance de José Saramago. ''A O2 entrou em contato comigo pedindo autorização para utilizar a marca numa cena de loja do 'Ensaio'. Terminei fazendo uma ponta. No caso de 'À Deriva', outra produção da O2, não sei se por que achavam que eu seria caro, me chamaram para fazer apenas algumas roupas. Disse que só aceitava se fizesse todas, até a do menino da pipoca, se houvesse algum.'' O filme passa-se em Búzios, nos anos 80. Herchcovitch resgatou camisetas e shorts que usava na época.
''Criei uma mala básica para cada personagem, como se eles estivessem viajando. Nada de 30 biquínis, o que seria falso. Uma meia dúzia, como as pessoas levam. Heitor (Dhalia) gostou da idéia.'' De novo, como no caso de ''A Encarnação do Demônio'', ser pautado foi salutar para ele. Herchcovitch está cheio de idéias. Não se admire se, depois da aura Disney da coleção Hello Kitty e do tom sinistro - de suas origens - de Zé do Caixão, ele for se alimentar da moda dos anos 80. (L.C.M.)





