Os loucos por livros ganharam mais um ponto de encontro em Londrina. É o sebo Mário de Andrade, inaugurado esta semana na sala 14 do Centro Comercial (centro da cidade), com mais de 5 mil títulos se espremendo nas estantes.
A maioria dos volumes é de literatura e da área de humanidades. Reúne raridades, volumes autografados pelos autores e edições mais ou menos recentes, mas já manuseadas. Entre os clássicos figuram os sete calhamaços da primeira edição brasileira do romance ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’, de Marcel Proust; uma edição da década de 50 de ‘‘O Tempo e o Vento’’, de Érico Veríssimo; e um exemplar da edição original de ‘‘Macunaíma’’, de Mário de Andrade.
Este último, homenageado no nome da livraria, é o autor preferido do proprietário Carlos Okawati, que é professor de História na rede pública. Ele conta que todos os livros do novo sebo saíram de sua biblioteca particular. ‘‘Estava ficando cada vez mais difícil manter esses livros em bom estado’’ - diz. ‘‘Há alguns anos, eu os mantinha num apartamento. Mais tarde, transportei tudo para uma casa, ocupando todos os aposentos. Agora decidi socializar minha coleção através da comercialização. Não dava mais para guardá-los. A manuntenção de livros é muito cara.’’
Experiente no ramo, por tocar há alguns anos uma banca de revistas usadas (Rua Sergipe esquina com a Av. Higienópolis), Okawati vê no negócio um importante meio para oxigenar a cultura da cidade. Os sebos, segundo ele, não só oferecem títulos inexistentes nas livrarias convencionais como vendem a preços bem inferiores aos do mercado.
Uma prova de sua afirmação foi a aquisição do volume ‘‘A Era dos Extremos’’, do historiador alemão Eric J. Hobsbawm, por uma estudante universitária na tarde de segunda-feira, primeiro dia de funcionamento da casa. Ela pagou R$ 15,00, ao passo que se fosse comprar numa livraria tradicional teria que desembolsar o valor de R$ 38,00.
O coquetel de raridades do acervo inclui o romance ‘‘O Mundo Visto Pela Paz’’, tido como um panfleto stalinista de Jorge Amado. Segundo Okawati, o livro foi renegado posteriormente pelo escritor baiano, que teria vetado sua reimpressão após um ‘‘mea-culpa’’ por ter apoiado a tirania do ditador soviético.
Já na seção de obras autografadas pelos autores, despontam volumes com assinaturas do economista Celso Furtado, do crítico literário Antonio Cândido, do cientista Mário Schemberg e do sociólogo Florestan Fernandes. Mas o amontoado de livros usados requer horas de apreciação. Numa olhada rápida, é possível flagrar o célebre ‘‘História da loucura’’ do filósofo francês Michel Foucault; dois livros de poemas do músico pop Jim Morrison; o volume de poesia ‘‘Psia’’ do também artista pop Arnaldo Antunes; os ‘‘Documentos de Cultura - Documentos de Barbárie’’ do judeu-alemão Walter Benjamim; a antologia ‘‘Toda Poesia’’ do poeta maranhense Ferreira Gullar; a coletânea ‘‘Millôr no Pasquim’’; o polêmico ‘‘Psiquiatria Alternativo’’ do italiano Franco Basaglia; a coleção completa da série ‘‘História do Marxismo’’ de Eric J. Hobsbawm; a bíblia da contracultura ‘‘Vida Contra a Morte’’ do pensador norte-americano Norman O. Brown; a análise ‘‘Artaud e o Teatro’’ de Alain Virmaux; o influente ‘‘O Campo e a Cidade’’ de Raymond Willians; a coleção de ensaios ‘‘A Vontade Radical’’ de Susan Sontag; e por aí vai.
O sebo está sendo montado aos poucos. Muitas caixas, que poderão ser vistas por quem visitar a casa hoje, ainda estão fechadas. O total de volumes, segundo ele, chega a 8 mil. Na próxima semana, CDs e discos de vinil dos gêneros jazz e clássicos dividirão o espaço com os livros. Gibis raros, de autores como Frank Miller e Milo Manara, também poderão ganhar as prateleiras.
‘‘Quero transformar o sebo num point cultural’’ - diz o proprietário, que planeja criar futuramente uma espécie de fã-clube de aficionados em seriados de TV, no andar superior do sebo. Negócio também é cultura.

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