CULTURA QUER DIALOGAR COM AS OUTRAS ÁREAS
Uma grande reclamação da comunidade cultural na gestão de Angela Marçal foi a falta de diálogo. Que abertura você pretende dar dentro da Secretaria?
A gente tem uma idéia de política integrada às bases. Queremos criar um fórum de identidade para discutir permanentemente o que é Londrina, qual a sua função e estar recuperando a memória. Depois que a gente definir uma linha mestra, vamos sentar e agendar reuniões com todo mundo, ir nos lugares, se for preciso, e ver o que a gente precisa para os projetos acontecerem.
Como você vê o Conselho de Cultura, que foi desativado na atual gestão?
A gente tem que conhecer todas as possibilidades de comunicação com quem produz cultura. Neste momento, o Conselho é o instrumento mais eficaz. Temos que reativá-lo para que se torne a távola redonda da Secretaria de Cultura. A gente elimina a politicagem e pensa diretamente nos interesses da comunidade, no projeto cultural e realiza. Não vai ser uma coisa paternalista. A secretaria tem que ser uma estrutura de apoio permanente para quem está trabalhando, e investir em projetos auto-sustentáveis, para mobilizar e beneficiar a cidade.
Nesse contexto, como ficaria a Lei de Incentivo?
A Lei de Incentivo tem que ser aprimorada. Não sei tecnicamente como vamos resolver esse problema, agora que a gente está vivendo uma situação de pânico, porque estão deixando uma herança terrível para a cultura em Londrina. Vamos ter que pensar em uma solução de emergência no começo do ano para que a gente resolva como pegar o dinheiro a que a cultura tem direito. Vou me colocar à disposição para estar ajudando a negociar com os empresários, ver qual é a contrapartida que a gente pode oferecer para o empresariado. A gente precisa transformar a cidade inteira em parceira dos projetos de cultura.
Os projetos que seriam beneficiados pela lei estão parados porque o processo de seleção ainda não aconteceu e a captação de recursos não foi autorizada. O que dá para fazer?
O grande mérito do Fórum de Cultura foi ter colocado todas essas questões na berlinda. Ajudei a fundar o fórum, no comecinho, quando estava um silêncio de morte e pouquíssimas pessoas se colocavam diante da política cultural desta gestão. Participei disso, fiz artigo no jornal e botei minha cara para levar tapa. A gente sabe que a Lei de Incentivo é um direito da cultura e o próprio prefeito a reconhece. A visão do Nedson é o que mais me anima em participar de uma equipe que pode criar novos paradigmas de gestão pública do Brasil. Vamos atacar interdisciplinarmente os problemas. A saúde é um problema cultural, a habitação tem a ver com saúde, a assistência social com educação e a educação tem a ver com bem-estar e qualidade de vida. As coisas se integram.
Como vai se dar esse diálogo da cultura com outras áreas?
Vamos aproximar a cultura das formas de geração de renda. A cultura tem que estar inserida dentro da perspectiva de vida econômica das pessoas. Hoje em dia, Londrina é o pólo de uma região metropolitana de quase dois milhões de pessoas. A gente pode atrair turistas regionais, fazer de Londrina uma cidade agradável com uma programação cultural extensa e com apoio de quem vai se beneficiar também disso, que são os prestadores de serviços. Temos que acabar com o amadorismo. A cultura é um instrumento de crescimento pessoal e da comunidade.
Uma coisa que as pessoas esperam com a eleição do Nedson é uma faxina geral nos órgãos públicos, após tantas denúncias de corrupção. Isso inclui a Cultura?
O Nedson deixou claro quando ele discutiu com o Movimento pela Moralidade qual seria a atitude: auditar tudo. Vai ter uma auditoria geral na prefeitura e inclusive na Secretaria de Cultura, para que a comunidade saiba tudo o que estava acontecendo e tudo o que vai acontecer daqui para a frente.
Na cidade existem muitos projetos que começam bem, mas simplesmente acabam. São boas idéias que não vão para frente. Como conduzir isso tudo de forma constante?
Londrina tem iniciativas de pessoas que vão, brigam e se sacrificam. Penso em transformar isso em escola. Sistematizar e distribuir. Transformar numa cultura de realização. Londrina tem uma cultura de empreendedor que tem que ser transportada para o produtor de arte também. A Rede da Cidadania pensa três pólos: tem o miolo, que favorece os pontos de rede no centro da cidade, com informações precisas, com trajetos de passeio para que o turista venha, para que a pessoa que esteja no centro da cidade tenha acesso. Uma grande segunda casca são os bairros que já têm uma cultura consolidada. E um grande circuito periférico que vai servir como centro de inclusão social, com trabalhos interdisciplinares, integrais. A Secretaria da Cultura tem que se abrir para todas as iniciativas da cidade, os festivais, o cinema, a música... Tudo isso está solto, desamarrado, sem instrumento de contato e consolidação.
Que tipo de relação você espera estabelecer com a Secretaria de Estado de Cultura?
A Secretaria de Estado já atua em Londrina de maneira positiva. Mas vejo que sua política é a política do Estado para Londrina. Quero criar um independência em relação a isso, quero que a Secretaria apoie os projetos de Londrina, não apenas traga seus projetos para cá. Sinto que nesse sentido a questão é de comunicação. Sentar com a secretária e dizer que nossas carências profundas são essas e perguntar: o que pode ser feito? Temos uma perspectiva muito bacana de existir realmente essa disposição de boa vontade de todo mundo que produz cultura pensar num projeto coletivo de transformar Londrina numa referência nacional para a ação cultural.
Seria uma forma de levantar a auto-estima cultural da cidade?
O poder, a prefeitura, a Secretaria não têm o poder de transformar as pessoas. As pessoas é que têm o poder de transformar suas vidas. O importante é oferecer os meios, os recursos para que isso aconteça. Tenho certeza absoluta que quando convocarmos músicos para dar aulas na Rede da Cidadania, sem receber nada, ninguém vai dizer não. Ninguém vai faltar a uma convocação se perceber que faz sentido e que isso terá consequências. É uma forma de estar participando de um momento difícil do povo brasileiro. Difícil, de massacres, de desmantelamento do ser humano, de desagregação familiar, de um cultura da violência que está nascendo nas periferias. Não podemos deixar que isso aconteça, porque aí vai ter vencido a mediocridade total, essa aspiração equivocada das elites de que elas podem se isolar em condomínios e o resto do mundo que se dane.
Você é um artista, um homem de criação, e isso acaba indo de encontro à burocracia. A parte burocrática da administração da Secretaria de Cultura amedronta você?
Não me amedronta nem um pouco porque é um problema que vai ter que ser resolvido por todo mundo. Essa estrutura velha, essa departamentalização burocrática, não interessa para ninguém. Pensando no jeito do Nedson administrar, a partir de um perspectiva interdisciplinar, a burocracia não pode sobreviver num ambiente assim. Não tem sentido perder duas horas numa fila. Isso é contra qualquer regra do bom senso. Você está se apropriando da existência do outro, isso é um crime.
Como você vai lidar com os vícios do funcionalismo público?
Minha experiência diz que quem está fazendo de um jeito quer continuar fazendo daquele jeito, sem saber por que. Por isso digo que a minha prioridade é minha equipe. Vou sentar e conversar com as pessoas, ver no que elas querem trabalhar, o jeito que isso se integra na política global. O contribuinte paga e os funcionários têm que trabalhar. Tenho essa experiência na vida privada. É necessário criar uma dinâmica, e essa dinâmica tem que ser positiva, harmoniosa. Abomino essa coisa de perseguir funcionário, perseguir inimigo político. A questão prioritária é ter uma equipe funcionando, ter uma comunidade cultural atuante, esclarecida e consciente, com um grau de despojamento. E ter uma visão da cultura como um instrumento libertário.
No atual panorama cultural da cidade, o que funciona e o que não funciona, na sua visão?
Acho que estamos vivendo um momento em que temos um esboço perfeito. Um festival de teatro que se direcionou para uma visão contemporânea de interação com a vida da cidade, uma escola de dança que funciona, um clube de choro, um festival de música etc e etc. Eventos espalhados por Londrina que revelam que a cidade é de empreendedores, é fantástica. A prefeitura só tem atrapalhado. Falando sinceramente, a Secretaria de Cultura, nos últimos anos só atrapalhou, tentou gerir politicamente essa massa crítica maravilhosa. E a minha idéia é o contrário, trazer à tona, deixar que as coisas se manifestem. A questão fundamental é equacionar e dar um sentido globalizante para a ação individual dessas pessoas que trabalham.
Qual a sua posição em relação à necessidade de um teatro municipal?
Acredito que a cidade precisa de um teatro municipal. A falta de espaços é vergonhosa em Londrina. Mas é evidente para todo mundo, nesse momento, que pegar dinheiro para investir numa estrutura física é quase um atentado ao bom senso. Podemos fazer um mapeamento dos espaços vazios, entrar em contato com famílias que possuem barracões sem uso, ver o que a gente consegue imediatamente recuperar. A Rede da Cidadania vai ter que criar vários tipos de espaços. O Paço Municipal, por exemplo, tem aquele gramado que pode se transformar num ponto de atividades dominicais onde as pessoas possam passear de maneira prazerosa, lúdica, enriquecedora. Numa cidade assim, uma mãe não mata a filha a marteladas.
Quando você foi indicado como possível secretário da Cultura, as pessoas consideraram um bom nome. Ao mesmo tempo, levantaram a hipótese de que você não conseguiria ficar muito tempo no cargo.
Isso não tem a ver com a minha vida, tem a ver com o que as pessoas pensam sobre as coisas que eu faço. Nunca deixei nada pela metade. Toda vez que saí de algum trabalho, a minha parte já estava concluída. Estou direcionando minha vida, me preparando para fazer um trabalho que realmente consolide essa vocação de Londrina, que abra o olho da cidade, que convoque seus empresários, seus artistas, para pensar de um modo mais profissional e contemporâneo.
Nesse momento, o otimismo seria fundamental?
Temos utopia, projetos e sonhos, sabemos da potencialidade de Londrina. Sabemos que vamos enfrentar um primeiro ano que vai ser uma pedreira. Tanto na consolidação de uma nova forma de ver a cultura quanto nas realizações práticas. O dinheiro que a Secretaria terá no orçamento desse ano é para cobrir a folha de pagamento. Acho que a eleição do Nedson foi uma chuva que caiu na caatinga. Agora, vamos pegar as pequenas florzinhas que nasceram e cuidar delas. Vamos ter que compensar com trabalho e quando atingirmos um certo peso poderemos exigir o que é direito e parar de mendigar.
JOGO RÁPIDO





