Assim como edifícios de grande valor histórico e arquitetônico são reconhecidos como patrimônio de um estado, um país ou até da humanidade, bens culturais de natureza imaterial também podem ser declarados patrimônio de uma região. São celebrações, formas de expressão, lugares e saberes ou modos de fazer que representam a cultura de uma comunidade. Na capital, essas manifestações foram catalogadas pela Fundação Cultural de Curitiba e integram a recém-lançada publicação ''Patrimônio Cultural Imaterial: Identificação e Registro''.
O catálogo é o primeiro do gênero na cidade e apresenta o resultado dos projetos contemplados em 2006 e 2007 no Edital de Identificação e Registro do Patrimônio Imaterial, além de um mapeamento com cerca 2 mil registros de manifestações culturais, reunidos em um CD que acompanha a publicação. ''É a comunidade reconhecendo que existem pessoas que têm habilidades culturais. Em geral, essa pessoa não se vê como artista, se vê como um trabalhador normal. É importante que alguém de fora o reconheça como artista, como alguém que tem um saber especial'', explica o pesquisador Ozanam Aparecido de Souza, coordenador do Mapeamento das Culturas Populares de Curitiba e organizador do catálogo.
Vinculado ao Fundo Municipal da Cultura, o Edital Identificação e Registro do Patrimônio Imaterial contempla as categorias: saberes ou modos de fazer, celebrações, formas de expressão e lugares, seguindo a orientação da Unesco, que define como Patrimônio Cultural Imaterial ''as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural''. ''A gente não tem a pretensão de ter um mapeamento de tudo, que é impossível, mas ter uma radiografia dessas manifestações culturais. Saber quais são, onde elas existem e o que pode ser feito com elas'', justifica Souza.
Entre as práticas registradas estão o trabalho de alfaiates, as celebrações nos terreiros de umbanda, a produção dos artesãos, os locais dedicados à música sertaneja, além da fabricação e consumo da broa de centeio, entre outras manifestações estudadas ao longo dos últimos dois anos. Uma das pesquisas investigou a trajetória do jazz na cidade, identificando apreciadores do estilo, bandas, discos, empresários, gravadoras, locais e músicos. O circo também ganhou um capítulo especial com a recuperação da história da família Queirolo, desde o início no Uruguai até o fim das atividades circenses na capital do Paraná, onde o grupo consagrou-se entre as décadas de 40 e 70.
A identificação e registro dessas atividades permite, entre outras coisas, conhecer quais são as referências culturais de diferentes regiões da cidade. No mapeamento realizado por Ozanam de Souza, por exemplo, a cultura Hip Hop marca forte presença. ''A meninada pertence a essa cultura. E convivendo com ela você tem outra igualmente forte que é a cultura sertaneja. Convivem em ambientes separados, mas igualmente presentes, fora do eixo cultural oficial'', analisa o pesquisador.
Para Souza, independente da origem das atividades culturais adotadas em cada comunidade, as pessoas arrumam algum jeito de celebrar aquilo que, por algum motivo, é importante para elas. ''Não importa se as instituições apóiam ou não. Se elas se manifestam e essa manifestação tem uma visibilidade, passa a ser um valor para aquelas pessoas.''



Os projetos

- No Olho da Rua e na Rua do Olho - de Lina Faria, registro fotográfico do Centro da cidade

- Pra ver a Umbanda passar: do Esquecimento à Lembrança - de Luciana Patrícia de Morais, mapeamento dos terreiros presentes na capital

- O Circo e a Cidade: Histórias do Grupo Circense Queirolo em Curitiba - de Luiz Andrioli

- Música Subterrânea: o Jazz em Curitiba como Elemento Significante para os Contornos do Cenário Sociocultural da Cidade - de Deborah Agulham Carvalho

- Os Derradeiros Artífices de uma Cultura Rural: Artesania para uso Rurícula ou Doméstico Tradicional em Curitiba/PR - de Emilio Carlos Boschilia

- A Broa Nossa de Cada Dia: Memória e Identidade das Gerações Curitibanas - de Juliana Cristina Reinhardt

- Curitiba ao Som da Viola - uma Canja no Circuito de Música Sertaneja em Curitiba - de Patrícia Martins

- Alfaiates e Alfaiatarias em Curitiba - de Valéria Oliveira Santos

- Sobre o Fazer... Artesãos de Curitiba e Região Metropolitana de Curitiba - de Josina Melo

- Projeto Mapeamento das Culturas Populares em Curitiba: uma Trajetória - de Ozanam Aparecido de Souza

- Exposição Registros - de Alice Rodrigues

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