Os números espantam: há 500 mil nordestinos morando no Norte do Paraná. Quem cita a estatística é o ator Fernando Góes, integrante do grupo londrinense Tribo da Folia, que desenvolve pesquisas na área da cultura popular.
''É muita gente. E é para essas pessoas que dirigimos nossas atividades numa tentativa de resgatar suas raízes, suas identidades culturais e sua própria cidadania'' enfatiza ele. Neste fim de semana, seu grupo mostra o espetáculo ''Boi de Mamulengo'', produzido com amparo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Hoje, às 20 horas, apresentam-se no distrito de Maravilha. Amanhã, às 18 horas, levam a montagem para o parque do Lago Igapó 4. Como consta no título, o espetáculo reúne elementos de duas das mais tradicionais manifestações populares brasileiras: o folguedo bumba-meu-boi e o teatro de bonecos mamulengo.
O bumba-meu-boi é uma espécie de auto em que se misturam teatro, dança, música e circo. No mês de junho, vira festa de rua em várias regiões do País, movimentando milhares de simpatizantes especialmente em São Luís do Maranhão e na cidade de Parintins, na Amazônia. Sua provável origem é o Nordeste das últimas décadas do século XVIII, onde a criação de gado era feita por colonizadores com mão-de-obra escrava.
Nas fazendas, os cativos teriam misturado suas tradições africanas (como a do boi geroa) a outras européias dos senhores (como a tourada espanhola, as tourinhas portuguesas e o boeuf gras francês) numa celebração que tematizava as relações de poder. A apresentação do folguedo encena o rapto, a morte e a ressurreição do boi intercalando a trama com músicas folclóricas.
A lenda pode ser contada de várias formas, mas a história básica é a da escrava Catirina (ou Catarina), grávida, que pede ao marido para que mate o boi mais bonito da fazenda porque quer comer a sua língua. Ele atende ao desejo da mulher e é preso pelo seu feitor, que tenta a todo custo ressuscitar o boi, com a ajuda de curandeiros.
Com o Boi revivido, tudo acaba em festa. Outros personagens podem entrar na encenação para dançar. No espetáculo do grupo londrinense, a história vira pura brincadeira. Quem assiste precisa ajudar Benedito (marido de Catirina) a encontrar esse boi e curá-lo, já que o boi ficou sem língua e o patrão o quer imediatamente.
A diferença da montagem é que a dramatização é feita por mamulengos. ''O mamulengo é o único boneco brasileiro na tradição do teatro de manipulação de bonecos'' afirma Fernando. ''No Nordeste ele é usado para tudo, seja para encenar ou como uma maneira do comerciante atrair fregueses para a sua barraca. Começamos a trabalhar com eles a partir de duas oficinas ministradas em Londrina pelo mestre Valdeck de Garanhuns'' conta.
No Tribo da Folia, quem manipula os bonecos é Daniella Fioruci (pedagoga) e Zé Peixe (construtor de instrumentos musicais). Já Ademilson da Silva (músico), Leandro Pfeifer (músico) e o próprio Fernando ficam responsáveis pela parte musical pontuando a narrativa com toadas. Todos os figurinos, adereços e instrumentos de corda e percussão são inspirados no bumba-meu-boi do Maranhão.
A trupe decidiu se juntar no início do ano passado com a dissolução do Grupo de Retalho de Cultura Popular, do qual faziam parte e cujos demais componentes deixaram a cidade após se formarem na UEL. O Retalho atuava desde 2001 pesquisando e difundindo as brincadeiras de cultura popular. ''Fizemos muitas apresentações na periferia'' conta Fernando.
''Sempre foi gratificante ver a reação das pessoas de origem nordestina na platéia. Já vi algumas chorando de emoção e outras felizes em participar das rodas de ciranda''. Empolgado com a receptividade de seu trabalho, o grupo planeja visitar cidades nordestinas para conhecer de perto as manifestações populares locais.
Já inscreveram um projeto no programa de incentivo cultural da Petrobrás, prevendo um registro audiovisual da viagem e aposterior elaboração de uma brincadeira (encenação) para ser apresentada em Londrina.

Serviço:
-Espetáculo ''Boi de Mamulengo'', com o grupo Tribo da Folia, em Londrina. Hoje, no Distrito de Maravilha (região sul de Londrina), em frente à lanchonete do Cícero. Horário: 20 horas. Amanhã, no Parque do Lago Igapó 4 (próximo à Cervejaria Fábrica 1), às 18 horas.

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