Um Brasil pós-abolição que ainda resguarda uma preciosidade de nossa cultura. Pés descalços em terreiros de ''terra batida'', baticum forte de tambores, versos improvisados e o primeiro ponto de abertura. Palmas acaloradas. Começa a dança. Ê-ê!
O jongo, patrimônio cultural do país reconhecido em 2005, está presente na região Sudeste, predominantemente no estado do Rio de Janeiro. Mas, Londrina virou cenário desse cancioneiro no último final de semana, que trouxe André Luis de Oliveira, integrante de uma das comunidades remanescentes de jongo, de Guaratinguetá, interior de São Paulo, para ministrar uma oficina sobre o ritmo.
Oliveira, de apenas 25 anos, deu início à série de Oficinas de Danças Brasileiras, oferecidas pelo Núcleo de Cultura Popular AlmA Brasileira, patrocinado pelo Promic, que até dezembro deverá proporcionar uma programação direcionada ao público interessado na pluralidade cultural do nosso país.
''Já nasci no jongo, porque a minha avó, Dona Mazé, é herdeira dessa festa e do grupo, que hoje tem cerca de 40 integrantes. Foi o bisavô dela que trouxe para o nosso bairro, Tamandaré, logo que se mudou de uma fazenda. Somente lá, o jongo tem mais de cem anos'', disse Oliveira, lembrando, também, de quando o jongo era apenas permitido aos homens. ''Por isso meu avô começou antes da minha avó. Depois que foi se espalhando, descendo das fazendas para as cidades, as mulheres começaram a participar com o canto, a dança, e assim minha avó se tornou herdeira da dança na região'', completou.
Dona Mazé cria os pontos (frases curtas que retratam o contato com a natureza, fatos do cotidiano, dia-a-dia de trabalho, entre outros, misturando o português com heranças do dialeto africano), faz a oração e dá início ao jongo, tradicionalmente à meia-noite, em volta de uma fogueira. De acordo com Oliveira, a fogueira é elemento fundamental por dois motivos: para esquentar e afinar o tambu (tambor confeccionado com barrica de vinho e couro de boi) e para espantar o frio, já que a festa do jongo acontece durante o mês de junho. Para complementar, muita canjica, canelinha (cachaça curtida com canela), pipoca e quentão.
Repleto de linguagens metafóricas, é preciso sensibilidade e experiência para tentar decifrar o significado dos pontos. ''É uma dança que mexe muito com a cabeça. Por exemplo, se um cara chato está participando da roda, eu canto pra ele: 'segura o sapo que saiu lá da lagoa (2x), tira ele do caminho, que a engoma fica boa'. O sapo, no caso, é o próprio chato; a engoma, é o jongo'', diverte-se. Seguindo a estrutura de canto responsorial, Oliveira disse que ao escutar esse verso, a intenção é fazer com que a pessoa perceba o 'recado' e saia da roda, ou, ainda, responda com outro, desatando o ponto inicial.
O fato de o jongo ser uma dança cujas matrizes provém dos ancestrais, do pretos-velhos escravos, e seja ritmado pelo toque enfatizado dos tambores, faz com que erroneamente seja relacionado à macumba. ''Mas não é, pois é uma dança africana, como o maculelê, capoeira e trevo. Agora que o jongo foi tombado, a gente tem que aproveitar essa chance de não só ensinar na comunidade, mas de incentivar as escolas a ensinar essa cultura africana. No nosso grupo, pessoas de todas as religiões participam, até fazemos a reza do terço, então não está restrito'', ressaltou Oliveira, afirmando que se depender de seu empenho, a dança jamais vai acabar.
Guaratinguetá, segundo Oliveira, contempla fase de boa maré, já que o grupo de jongo vem se destacando de modo crescente. A cidade também apresenta os projetos culturais e sociais ''Ponto de Cultura - Ministério da Cultura'' e ''Projeto Bem-te-vi''. ''É a terra do Frei Galvão e o Papa deverá visitar nossa cidade. O nosso time de futebol, morto há mais de dez anos, subiu para A-1 (Primeira Divisão do Campeonato Paulista)'', orgulhou-se Oliveira, dizendo que os interessados podem conhecer a comunidade. ''E como diz um ponto criado por minha avó, 'Eu vou abrir meu cango êê/ eu vou abrir meu cango áá/ primeiro eu peço a licença para a rainha lá no mar/ Pra saudar a povaria/ Eu vou abrir meu cango ê ê-ê'', saudou o integrante.

Serviço
- Grupo de Jongo de Guaratinguetá, no bairro de Tamandaré. Como chegar: Estrada Rio-São Paulo, a quatro horas e meia do Rio, a 220 km. Contato: Lúcia, pelo telefone (43) 3133-3408. Ciclo de Festas Juninas: sempre no sábado seguinte aos dias de Santo Antônio, São João e São Pedro.

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