Jotabê Medeiros
Agência Estado
Tão velha quanto a cultura pop é a tentativa de estabelecer relação de efeito e causa entre ela e certos atos de barbárie do mundo contemporâneo. Quando Charles Manson e sua seita de malucos barbudos entraram na casa de Sharon Tate, em agosto de 1969, e promoveram uma carnificina, matando até mesmo a anfitriã, que estava grávida, o fato chamou a atenção para a questão. Mas derrubou principalmente o ideário de ‘‘amor e paz’’ da geração hippie.
Quando Mark David Chapman, jovem de 25 anos, emboscou John Lennon em 8 de dezembro de 1980 e atirou sete vezes no ex-Beatle, o caso passou a ser visto como um tipo de atração mórbida entre fã e ídolo. Chapman tinha pedido um autógrafo a Lennon horas antes. Mas foi só recentemente que se começou a relacionar a própria natureza da obra de arte com prováveis consequências no imaginário popular. ‘‘Assassinos Por Natureza’’ (‘‘Natural Born Killers’’), de Oliver Stone, parece ter sido o que levou mais longe a ilação.
Em 7 de março de 1995, Benjamim Darras, de 18 anos, e sua namorada, Sarah Edmondson, após tomar LSD e assistir várias vezes ao filme, pararam um agricultor na estrada, em Hernando, no Mississipi, que mal teve tempo de correr alguns passos antes de ser baleado. No dia seguinte, a dupla atacou em Ponchatoula, perto de New Orleans. Desta vez, Sarah foi quem atirou na balconista de uma loja de conveniência, onde fora comprar chocolates. Ela disse que viu ‘‘o demônio’’ atrás do balcão.
‘‘A caça às bruxas para explicar os males da sociedade está encravada em nosso sangue’’, disparou o cineasta Oliver Stone, logo após a coisa toda. ‘‘A diferença é que agora nós não culpamos mais a feiticeira do vilarejo, nem o gato preto dela, mas o escritor, o fotógrafo e o cineasta’’, lamentou.
Mas depois vieram os assassinatos em massa nas escolas. Segundo notou Ann Powers no ‘‘The New York Times’’, na época da matança na escola de Columbine, no Colorado, uma horda de psicanalistas debruçou-se sobre os temas dos roqueiros preferidos dos assassinos – os garotos Dylan Klebold e Eric Harris – para tentar localizar o ponto exato da ‘‘má influência’’. Os roqueiros eram o cantor Marilyn Manson e os grupos alemães Rammstein e KMFDM.
Na época, Manson defendeu-se dizendo que, se a arte fosse capaz de estimular a violência, ‘‘Guernica’’, de Picasso, poderia ter ocasionado um massacre. Mas ‘‘Guernica’’ era apenas a representação de um massacre, de um sintoma da sociedade na qual vivia Picasso naquele tempo. ‘‘A mídia sempre procura culpados entre os artistas’’, disse recentemente Kirk Hammet, guitarrista da banda Metallica. ‘‘Eu acho que pode haver más intenções na música quando ela é comercial e é arte pequena, mas não se pode julgar o Metallica e muito menos o Ricky Martin por atos de terceiros’’, bradou Hammet.
Sua banda também foi acusada de estimular um assassinato nos Estados Unidos, quando a polícia encontrou CDs do grupo na casa de um serial killer juvenil. Alguns psiquiatras defendem a tese de que imagens de carnificinas afetam jovens impressionáveis. No caso do rock, algumas letras. O grupo KMFDM é um exemplo. Pioneiro do rock industrial, mistura ritmos criados por máquina com melodias pop e dissonâncias aleatórias. As letras são cruas e violentas. ‘‘Se eu tivesse uma arma/ Eu me explodiria e me mandaria para o inferno.’’
Às vezes uma letra ou uma série de cenas violentas serve adequadamente como argumento. Mas às vezes não. O que poderia fazer de mal a inocente música comercial do grupo nórdico A-Ha, a não ser maltratar os ouvidos?
Em março de 1990, porém, o estudante de engenharia Marcos Antonio dos Santos invadiu a casa do vizinho, no Alto do Mandaqui, zona norte, e matou toda a família – dois adultos e duas crianças. Ele justificou seu ato dizendo que ouvia vozes de comando do cantor Morten Hackert, do grupo A-Ha.
Seria apenas mais um detalhe mórbido para a crônica policial, se o caso não tivesse chamado a atenção de um dos maiores escritores brasileiros, Dalton Trevisan. Baseado na história, Trevisan escreveu um dos seus grandes contos, ‘‘As Vozes’’. Não tirou a cultura pop do banco dos réus, mas fez arte para além da polêmica.

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