Cultura nem tão inútil
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Numa conversa, para dar ênfase a um argumento, alguém faz uma citação. Você, que nunca tinha ouvido a expressão antes, não pode evitar um olhar de interrogação, que revela, pelas reticências que emolduram seu silêncio, a quantas anda sua total ignorância a respeito do assunto. Claro que o outro, aquele que falou, percebe sua estranheza e logo toma conta do espaço, sentindo-se o ''rei da cocada preta'' ou ''por cima da carne-seca''. Ponto para ele ou para ela. Você vai deixar o jogo terminar assim? Recorra, então, a este acervo resumido das citações mais usadas e aprenda rápido quem disse o quê, quando e porquê. De vez em quando, valerá a pena tirá-las do baú, para ''fazer bonito'' com quem ainda não sabe.
''A sorte está lançada!'' Traduz a expressão latina ''Alea jacta est!'', que o imperador Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) teria dito quando resolveu marchar sobre Roma, atravessando o Rubicão (riacho entre a antiga Gália e a Itália), para derrubar seu rival Pompeu. A frase costuma ser empregada quando se toma uma decisão arrojada, depois de muita hesitação.
''Voz do povo, voz de Deus.'' Também de origem latina, mas sem autoria conhecida, a expressão ''Vox populi, vox Dei'' costuma ser usada para valorizar a sabedoria popular, vinculando-a à inspiração divina.
''O Estado sou eu!'' Ou, como disse o rei Luiz XIV, o ''rei sol'' (1661-1715), então com 17 anos de idade, ''L'État c'est moi!'', em resposta à observação de um integrante do Parlamento, que lhe falava sobre os interesses do Estado francês. É empregada e, lamentavelmente, sempre soando atual, para exemplificar casos extremos de autoritarismo e de personalismo.
''Ser ou não ser... eis a questão!'' Escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), a famosa frase ''To be or not to be... that's the question!'' faz parte do monólogo de Hamlet, na peça de mesmo nome, em que o personagem reflete sobre as mais profundas questões da existência. Usa-se a propósito de situações difíceis, em que a indecisão pode se tornar paralisante.
''Vim, vi, venci.'' Trata-se de outra expressão do criativo imperador romano Júlio César. Com a frase ''Veni, vidi, vici.'' comunicou ao Senado sua imediata e irresistível vitória a guerra durou apenas cinco dias sobre Fernaces, rei do Ponto. Emprega-se para indicar uma vitória obtida rapidamente.
''Carpe diem!'' Na tradução literal, ''Colha o dia!'', mas o sentido dessa expressão de origem latina está mais próxima de ''Aproveite o momento!''. Criada pelo poeta romano Horácio, que viveu no século I a.C., a frase nos lembra que a vida é curta e que devemos usufruí-la integralmente, sem desperdício de tempo.
''Presente de grego'' Não é uma frase, mas um mito da história, que se transformou em uma expressão capaz de dar a idéia de que alguma coisa ou alguém, aparentemente favorável aos nossos interesses, acabou se revelando contra nós: Puxa, mas que ''presente de grego!''. A origem desse mito remonta à Antiguidade, quando gregos e troianos se digladiavam em guerra interminável e a cidade de Tróia, mesmo totalmente sitiada, resistia. Para conquistá-la, os gregos recorreram a um ardil. Construíram um imenso cavalo de madeira, deixaram-no às portas da cidade e fizeram com que os troianos acreditassem que se tratava de um presente. O cavalo, cujo bojo estava repleto de guerreiros gregos, foi transportado para dentro de Tróia, causando a derrota da cidade. Pode-se usar, com igual significado, a expressão ''Cavalo de Tróia''.
''Calcanhar de Aquiles'' Trata-se de outra expressão mitológica, usada para assinalar o ponto fraco de alguém: Hei de descobrir seu ''calcanhar de Aquiles''! Conta a lenda que, quando pequeno, Aquiles foi mergulhado pela mãe num lago mágico, o Estinge, que tornava as pessoas invulneráveis. Mas, como a mãe o segurou pelo calcanhar, a água não atingiu essa parte do corpo do herói e foi justamente aí que Páris o feriu na guerra de Tróia (a mesma do ''presente de grego'').
''Negócio da China'' Quem não quer um? Trata-se de uma expressão empregada para indicar um negócio de pouco risco e muito lucro. Está associada aos primórdios do comércio marítimo e, especialmente, às famosas viagens de Marco Polo ao Oriente, descrito, na época, como um lugar de riquezas incalculáveis.
''Ovo de Colombo'' Frente aos céticos, que colocavam em dúvida o mérito de suas descobertas marítimas, Cristóvão Colombo os desafiou a colocar um ovo em pé. Frustradas todas as tentativas, Colombo quebrou ligeiramente uma das extremidades do ovo e, com isso, conseguiu seu intento. Naquela época, como hoje, o sentido continua o mesmo: tudo parece muito fácil... depois de feito.


