A professora Julieta
de Andrade critica as
comemorações folclóricas
e o conceito de
‘‘preservação cultural’’

Érika Pelegrino

Entre as diversas atividades da II Mostra Londrina de Folclore - que termina no dia 9 - um curso rebate justamente as comemorações festivas das expressões culturais do povo. A ministrante do curso ‘‘Cultura Brasileira: Folclore’’, professora doutora Julieta de Andrade, tem 50 anos de dedicação ao assunto e afirma que os decretos municipal e federal determinam que o folclore seja comemorado com pesquisa. ‘‘E não com festas de tablado’’, enfatiza.
Para a professora, organizar apresentações específicas para mostrar o folclore de um povo, é o mesmo que fazer uma festa de aniversário para ser assistida. ‘‘As pessoas não percebem que isto é querer mostrar a intimidade de um povo. É uma violência’’, afirma.
A aversão a este tipo de comemoração não é intransigência da pesquisadora. O fundamento está na própria definição do termo. Segundo Julieta de Andrade, ‘‘folclore é cultura espontânea, cujo aprendizado acontece na vivência e por vontade do aprendiz, qualquer interferência de grupos de fora descaracteriza a cultura’’.
Ela explica que é comum pessoas de fora de uma comunidade pagarem para que os integrantes desta comunidade façam apresentações de sua cultura. Com isto o povo passa a querer dinheiro para fazer o que antes fazia por devoção. ‘‘É uma invasão querer mostrar aquilo que é a intimidade de um povo. Modifica a identidade daquela manifestação. Faz perder a inocência, a pureza’’, conclui.
Julieta de Andrade estuda o folclore desde os 17 anos, já passou cinco décadas percorrendo o país, convivendo com o povo, conhecendo seus costumes. Esta experiência dá autoridade para a professora criticar as comemorações que costumam ser realizadas em nome da ‘‘preservação da cultura do povo’’.
‘‘Cultura não precisa ser preservada. Cultura não é picles para ficar no vinagre’’, salienta. ‘‘Para colocar verdade nas expressões culturais de um povo, para mostrar a alma do brasileiro é preciso estudo e pesquisa’’, complementa.
Folclore é feito para ser vivido e estudado com método, sem interferências. Julieta afirma que não é possível ensinar o folclore. ‘‘Cultura é o acervo de conhecimento aprendido no cotidiano, no ambiente em que a pessoa vive, por livre opção, não é ensinado’’, explica. ‘‘Tocador de viola não recebe aula para aprender a tocar. A mãe não dá aula para ensinar a filha a cozinhar, ela aprende ao ver a mãe cozinhando’’, complementa.
As festas das nações, muito comuns, também não representam a cultura dos povos, de acordo com a professora. Segundo ela, estas festas mostram separadamente cada nação, quando existe uma interação entre as culturas. ‘‘O sentido é congregacional. Um povo leva seus costumes para outros povos. O mesmo acontece com as expressões folclóricas no Brasil.’’
Ela afirma que o Brasil tem uma unidade cultural, porque o brasileiro não permanece no estado de origem, ele transita e leva para outros lugares seus conhecimentos. ‘‘Os poloneses, por exemplo, quando vieram para a região Araucária no Paraná, na década de 40, ensinaram a fazer casa com telhado de madeira. Na década de 70, os paranaenses já tinham levado esta técnica para o Pará e Rondônia’’, afirma.
As diversas manifestações folclóricas acontecem com denominações diferenciadas em cada parte do Brasil, mas com o mesmo significado. A professora cita o Reizado, no Nordeste, que no Sul é a Folia de Reis. São formas locais de expressar a cultura, mas o rito é o mesmo.
Segundo a professora, é preciso acabar com o regionalismo em cultura brasileira. ‘‘A expressão nordestina em São Paulo é muito grande’’, exemplifica. ‘‘Somos todos brasileiros. Independente do Estado de origem, o brasileiro está no chão que é seu e tem liberdade de morar onde quiser.’’
Apesar de ter uma visão crítica sobre as ‘‘festas de tablado’’ que costumam ser realizadas para comemorar o folclore, ela acredita que não se deve acabar com estas comemorações, mas sim enfatizar a importância da pesquisa. ‘‘Foi um ato de coragem da Secretaria de Cultura de Londrina me chamar para dar um curso mesmo sabendo da minha postura crítica’’, avalia. ‘‘É uma forma de crescer e de passar a colocar mais verdade nestas comemorações.’’

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