Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Os médicos da Fundação Oswaldo Cruz caminhavam sertão adentro, na Serra da Capivara, Piauí, quando foram interceptados por moradores do local. A presença de profissionais da saúde por lá é tão escassa que, quando surge a oportunidade, o povo corre para se consultar. Na conversa, os médicos ficaram sabendo de uma mulher na região que há anos não andava.
Em casa, a senhora permanecia em uma cadeira dizendo coisas incompreensíveis. Foi então que o médico percebeu que os remédios receitados nos últimos anos eram todos ministrados diariamente à paciente. Durante anos, a senhora permaneceu drogada. Com a suspensão imediata dos medicamentos, a mulher mostrou sinais de melhora já no primeiro dia.
Esta e muitas outras histórias sobre a iniciativa de profissionais de saúde no Brasil estão concentradas no livro ‘‘Cuidados pela Vida – Outras Histórias’’, lançado em edição bilíngue – português-inglês – pela Editora Terra Virgem. A obra é uma espécie de continuação do álbum ‘‘Cuidados pela Vida’’, lançado em 1998. O trabalho reúne textos de Ana Augusta Rocha, Marcelo Macca e Roberto Linsker, e fotografias de Lalo de Almeida, Pedro Martinelli e Roberto Linsker.
Mais do que um apanhado de assistencialismo, ‘‘Cuidados pela Vida – Outras Histórias’’ retrata iniciativas individuais que acabaram se transformando em organizações sociais. Com boa qualidade gráfica e editorial, o livro traz uma visão abrangente da saúde, incluindo questões culturais.
Os textos alertam, por exemplo, para a pirataria de espécies amazônicas. Pesquisadores estrangeiros estão registrando, no exterior, princípios ativos de plantas como a quebra-pedra e a mama-cadela, usadas há tempos pelos índios, caboclos e nativos da região. O resultado é catastrófico: a cada utilização dos produtos, os laboratórios brasileiros têm que pagar os royalties.
O conhecimento das populações sertanejas é retratado pela obra, que destaca a atuação de mateiros como o acreano Artemildo Ribeiro da Silva, transformado em agente de saúde, ou o Tom das Ervas, raizeiro conhecido em Goiás. No sertão cearense, o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária, do Dr. Adalberto Barreto, utiliza violeiros para propagar repentes sobre cuidados com a higiene e preparação de soro caseiro.
Iniciativas como a da psiquiatra Nise da Silveira, também são louvadas. Nise rebelou-se contra os eletrochoques no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Rio de Janeiro, ainda na década de 40. Como alternativa, diminuiu os psicotrópicos e incentivou os pacientes a exercitar a criatividade com massas de modelar, desenhos e pinturas. Mais ainda, adotou cães e gatos como animais de estimação dos internos. Ela acreditava que o carinho oferecido pelos animais, sem contrapartida, causa grandes benefícios aos doentes.
Num país em que o governo não vence a demanda na área da saúde, o livro atenta também para o descaso público em regiões desassistidas. No interior do Piauí, isolado em plena caatinga, um homem insano é mantido preso em um cubículo de barro, aprisionado pelos próprios irmãos.
As iniciativas para melhorar a qualidade de vida de comunidades inteiras surgem até em cenários de guerra civil, como a favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro. Ali, a organização Médicos Sem Fronteiras, formada por profissionais voluntários, criou em três anos um posto de saúde, com ajuda da população.
Uma das histórias mais interessantes envolvem o médico Jefferson Resende. Ele descobriu que a falta de oxigenação é um problema incidente que traz sequelas graves aos recém-nascidos. Nas salas de parto ainda é comum a utilização das bolsas de ar, confeccionadas para atender adultos e acionadas com a mão. Ou seja, a quantidade de ar enviada aos pulmões não é adequada às crianças, além de oscilar durante a manipulação.
Por isso o médico criou um aparelho portátil, o Schinkoeth. A máquina coordena e regula a quantidade de ar enviada ao organismo e pode ser também utilizada em adultos. Com uma vantagem: é portátil. O Schinkoeth já é fabricado no Brasil e aguarda a aprovação da Federal Drug Administration (FDA) para ser exportado para os Estados Unidos.
Outros trabalhos englobados pelo livro incluem a Associação de Assistência à Criança Defeituosa (AACD), missões da Marinha, o São Paulo Interior Transplante (Spit), a Laramara (Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual), a Comsaúde, Apae, e parteiras do sertão ligadas ao CAIS do Parto.
Cuidados pela Vida – Outras Histórias – Terra Virgem Editora, 156 páginas. Fotos de Lalo de Almeida, Pedro Martinelli e Roberto Linsker. Textos de Ana Augusta Rocha, Marcelo Macca e Roberto Linsker. A obra tem patrocínio dos Laboratórios Biosintética pela Lei Rouanet. O preço sugerido para as livrarias é de R$ 50,00.Livro lançado pela Terra Virgem traz textos e fotos sobre iniciativas que buscam a melhoria de vida em todo o Brasil
Reprodução‘Cuidados Pela Vida’: ações voltadas para a saúde com qualidade gráfica e editorialReproduçãoAs populações ribeirinhas da Amazônia ganham atendimento da MarinhaReproduçãoMédicos da Spit trabalham cotidianamente pelo sucesso de transplantes renaisReproduçãoA psiquiatra Nise da Silveira, de orientação junguiana, combateu os eletrochoquesReproduçãoDentro do cubículo, um homem insano é mantido preso pelos irmãos em pleno sertão do PiauíReproduçãoO trabalho das parteiras está ganhando o reconhecimento de instituiçõesReproduçãoCaatinga: biodiversidade brasileira está sendo pirateada por pesquisadores estrangeiros

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