Cultura e tradição em Coimbra
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quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Adriana Carranca<br> Agência Estado 
Coimbra - A vida em Coimbra (Portugal) exala cultura. Gira em torno de livrarias, cafés, antiquários, galerias de arte e das praças, onde jovens estudantes se juntam nos fins de tarde, como na frente das escadarias da Sé Velha, às vezes acompanhados por concertos de música clássica ao ar livre.
Esse ambiente se deve, em especial, ao fato de se tratar de uma cidade universitária. Fundada em 1290 e transferida para Coimbra em 1537, a Universidade de Coimbra é marcada pela arquitetura dos portais manuelinos da Capela de S. Miguel e, principalmente, pelo ouro brasileiro, que adorna a Biblioteca Joanina. Inaugurada em 1724 e aberta ao público em 1777, tem 300 mil livros, dos quais 45 mil à vista. Uma rápida passada de olhos e se encontram coisas como um livro sobre a história do Brasil, escrito em italiano e cuja publicação data de 1698.
Esse acesso à cultura e à arte faz de Coimbra um centro de produção literária, artística e musical. Disputa com Lisboa o título de cidade do fado. Há diferenças entre a música nas duas cidades. Diz-se que a capital portuguesa canta as paixões. Já as letras de Coimbra falam de saudades e de separação. É uma cidade universitária, onde há muitos estudando fora de casa, o que inspiraria as tais letras.
Coimbra é assim, dramática. Foi palco de uma das histórias mais trágicas e românticas de que Portugal tem notícia. Herdeiro do trono ocupado por seu pai, o rei dom Afonso IV, dom Pedro se apaixonou por Inês de Castro, filha de um poderoso espanhol, inimigo de seu pai. Impedido de se casar, ele mantinha encontros secretos com Inês, no lugar em que, mais tarde, dom Afonso mandaria matá-la. Quando subiu ao trono, após a morte do pai, dom Pedro mandou capturar os assassinos. Em 1360, ele anunciou que havia se casado secretamente com Inês, coroando-a rainha mesmo depois de morta.
O jardim da Quinta das Lágrimas, onde os dois se encontravam, é hoje aberto ao público. Inês morava no Convento de Santa Clara-a-Velha, nos fundos da quinta. No jardim, fica a fonte dos amores, local onde Inês foi decapitada pelos soldados do rei no fundo da fonte há uma pedra vermelha, que dizem ser o sangue de Inês. Vem dessa fábula a expressão: ''até aí, Inês é morta''. Os corpos dos dois estão enterrados no castelo de Alcobaça, frente a frente, como exigiu dom Pedro, que dizia temer perder-se de Inês no céu.
A região em torno da cidade também tem opções interessantes de passeio. No Sítio de Conímbriga, em Condeixa, pode-se caminhar por ruas romanas bem preservadas. O sítio teria sido habitado desde o neolítico e os romanos se apoderado daquelas áreas em 138 a.C.. O fórum e as termas foram os primeiros edifícios a serem construídos, nos tempos do imperador Augusto. Muita coisa resistiu ao tempo.
Em Montemor-o-Velho, a caminho da costa oeste, a principal atração é o castelo de onde Afonso IV teria dados aos seus soldados ordens de matar Inês de Castro.
Água na boca - Quando era criança, a doceira Cacilda Correia já gostava de brincar na cozinha. As receitas das vizinhas, adicionadas a um bocado de talento, transformaram Cacilda em uma celebridade da gastronomia portuguesa. Ela não faz pose. Continua cuidando pessoalmente da confecção dos doces: abre a massa e bate o recheio. Na cozinha, 17 funcionários controlam os fornos e separam claras das gemas, ingredientes principais das receitas, que ela não esconde de ninguém.
''A receita é praticamente a mesma para todo mundo. Cada pessoa é que põe um bocado da alma e das coisas que gosta'', garante. A filha de Cacilda, Diana, de 12 anos, já cozinha. ''Ela tem mão boa para as queijadinhas e os pastéis'', diz a mãe, orgulhosa. Na pequena aldeia de Tentúgal há outras 15 docerias. Nenhuma com tanta fama. Aberta há 22 anos, a Pousadinha (00--3512-3995-1158) vende 2 mil doces e 300 salgados por dia. O carros-chefe são os pastéis de Tentúgal e as queijadinhas.
Mas há muitos outros: são 40 tipos de doces, entre os quais barriga de freira (doce de ovos com amêndoas e abóbora) e um suspiro, no tamanho e formato de um pão italiano, que, segundo manda a tradição, tem de ser despedaçado com um soco. O suspiro é assado no forno a lenha, durante 18 horas, o que faz toda a diferença.
Segundo a história oficial, freiras do Convento das Carmelitas de Nossa Senhora da Natividade, em Tentúgal, começaram a envelhecer e, como não recebiam novas devotas, contrataram moças de fora para trabalhar. Assim, as receitas teriam deixado de ser exclusividade das freiras para se tornar patrimônio nacional. Os doces seriam feitos com gemas de ovos que sobravam das claras, usadas para engomar as vestes. A Pousadinha fica a 25 quilômetros de Coimbra.


