CULTURA E MAGIA NO PALCO
Simone Mattos
De Curitiba
Mais do que teatro, o espetáculo Além da Lenda é um protesto sobre a história de um povo que nunca pode mostrar a sua cara. Quem define é o autor do texto e presidente da Associação de Preservação da Cultura Cigana, Cláudio Domingos. A montagem fará a sua estréia nacional no dia 20 de março, na mostra oficial do 9º Festival de Teatro de Curitiba.
Em 40 minutos, a companhia Educarte Promoções Artísticas mostra um interrogatório imaginário em que um cigano busca a sua identidade cultural como minoria étnica, tendo como pano de fundo a falta de participação na história oficial do País e do mundo.
Domingos questiona a discriminação que os ciganos teriam sofrido nos últimos séculos. O processo civilizatório do Brasil se deu a partir dos índios, negros e ciganos, povo que foi expulso de Portugal a partir da metade do século 16, afirma o autor do espetáculo. A questão é que nesse processo os ciganos ficaram totalmente relegados ao segundo plano, protesta.
Ele comenta que nas comemorações dos 500 anos do Brasil, por exemplo, praticamente só se fala nos índios, ignorando-se a cultura cigana. O ministro do Esporte e Turismo (Rafael Greca) é o maior culpado por isso, já que ele não gosta do nosso povo, acusa Domingos.
Durante a gestão de Greca como prefeito de Curitiba, a comunidade cigana local composta por 250 pessoas teria solicitado uma área para acampamento e um portal, o que foi negado mediante justificativa de que a história de Curitiba não contava com a participação dos ciganos.
Nessa época, uma cigana velha jogou um lenço no chão, lançando uma maldição para que o prefeito ficasse exposto ao ridículo em sua vida pública, conta. Isso significa que maldição de cigano dá certo, ironiza Domingos.
Como protesto, o espetáculo utiliza cenários inspirados na obra do pintor curitibano Guido Viaro. Segundo os ciganos, o artista plástico pintou cerca de 30 telas baseadas na comunidade cigana de Curitiba. Uma delas faz parte do acervo do Hotel Bourbon e está exposta no primeiro andar daquele prédio.
O espetáculo Além da Lenda é discursivo e retrata as perseguições que os ciganos sofreram por parte da igreja e do nazismo, por exemplo. No palco, a companhia mostra costumes autênticos, como trajes, músicas e danças, fugindo dos estereótipos e caricaturas.
Por intermédio das danças, a companhia faz outro protesto. Mostramos que a dança flamenca foi criada pelos ciganos há 700 anos e que os espanhóis se apropriaram dela indevidamente, afirma. Ele também garante que grandes compositores, como Bach e Liszt, frequentavam acampamentos ciganos, ouviam as suas músicas e se inspiravam para compor.
O texto de Além da Lenda foi baseado numa tese de mestrado feita pelo paraibano Luciano Mariz Maia, mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Londres. O espetáculo é educativo e pretende atingir um público-alvo formado por profissionais e estudantes de Antropologia, Sociologia, Direito e História.
As apresentações acontecerão nos dias 20 e 21 de março, num ônibus-palco, já que a companhia Educarte Promoções Artísticas é itinerante, como toda a cultura cigana. A trupe foi formada há 20 anos.
A direção de Além da Lenda é de Neiva Camargo. No elenco estão Sílvio Almeida, Patrícia Casquilha, Juliane Alves, Maria Tereza, Neiva Camargo e Tatiane Iovanovitchi.
O espetáculo faz parte de um projeto maior, chamado Exposição Itinerante de Cultura Cigana, que inclui também vídeo, mostra de artesanato, fotos e trajes típicos. O projeto que pretende percorrer 50 cidades brasileiras foi recentemente aprovado pela Lei Rouanet, mas está com dificuldades na captação de recursos.
Por este motivo, uma comissão da Associação de Preservação da Cultura Cigana estará reunida hoje, às 14 horas, com a secretária de Estado de Cultura, Lúcia Camargo. Em 500 anos de Brasil, nunca pedimos nada, diz Domingos. Ele afirma que a exposição não fará mais sentido se não puder ser mostrada neste ano. A comemoração do aniversário de 501 anos não nos interessa, afirma.
A estréia de Além da Lenda será no dia 20/3, às 21h30. Haverá outra apresentação no dia 21/3, às 20 horas. O ônibus-palco estará estacionado no Galpão 2 (Rua Dr. Faivre, esquina com a Rua Nilo Cairo, em Curitiba). A companhia pretende realizar temporada do espetáculo em abril, no Teatro José Maria Santos.





