Cultura do cancelamento em alta

Episódios recentes envolvendo pessoas públicas no Brasil mostram que o linchamento virtual segue implacável; mas há diferenças entre cancelar e bloquear

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

 

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Regina Duarte perdeu mais de 100 mil seguidores no Instagram em um único dia. O cancelamento do público nas redes sociais registrado na última terça-feira (8) causou indignação da artista, que fez um post cobrando uma explicação dos administradores da plataforma. "Ontem eu comemorei, toda feliz, os 2 milhões e quatrocentos mil seguidores, lembram? Hoje amanheci com 2.300. Com profunda dor e indizível decepção pergunto: o que será que aconteceu? Onde foi que eu errei?", questionou a atriz que ganhou afetos e desafetos desde que se tornou defensora voraz do presidente Jair Bolsonaro. 


A cultura do cancelamento nas redes sociais tem ganhado episódios cada vez mais emblemáticos. Outro caso recente envolveu a atriz Juliana Paes. A artista recebeu milhares de críticas pela internet após defender a médica Nise Yamaguchi, que sofreu fortes ataques ao depor da CPI da Covid por incentivar o tratamento precoce sem comprovação científica contra a doença. A discussão ficou ainda mais acalorada depois que a atriz postou um vídeo se justificando e dizendo que não era Bolsominion, como muitos seguidores acreditavam. Para muitos seguidores, a postagem reforçou a postura “em cima muro” da atriz.  


O linchamento coletivo nas redes sociais não se restringe apenas a controvérsias no campo político. Além de ser eliminada do BBB 21 com votação recorde de 99,17%, a cantora Karol Conká perdeu mais de 300 mil seguidores nas redes sociais e diversos contratos publicitários. O público não perdoou a artista que durante o reality show mostrou atitudes nada condizentes com o discurso militante a favor das minorias que adotou como bandeira em suas músicas. A musa fitness Gabriela Pugliese também pagou um preço alto por seu comportamento. Após ter promovido uma festa e debochado da pandemia em maio do ano passado, a influencer perdeu mais de 150 mil seguidores nas redes e acumulou um prejuízo estimado em R$ 3 milhões ao ter contratos de publicidade cancelados. 


Os casos de cancelamento nas redes sociais têm ganhado cada vez mais repercussão dentro e fora do Brasil. A conduta implacável de internautas que deixam de seguir pessoas públicas que tomam atitudes questionáveis ou explicitamente incorretas chegou a ganhar uma definição oficial. A expressão "cultura do cancelamento" foi eleito como o termo do ano em 2019 pelo Dicionário Macquarie, que anualmente seleciona as palavras e expressões que mais caracterizam o comportamento de um ser humano. 


“Block é vida, block é saúde” 

 

Cora Rónai, colunista de O Globo: "Para quem administra uma página com algum movimento, como eu faço, o block é praticamente uma ferramenta terapêutica, porque lima os trolls dos comentários e permite uma conversa saudável entre os demais. O cancelamento é a vitória dos trolls, a vitória de estupidez"
Cora Rónai, colunista de O Globo: "Para quem administra uma página com algum movimento, como eu faço, o block é praticamente uma ferramenta terapêutica, porque lima os trolls dos comentários e permite uma conversa saudável entre os demais. O cancelamento é a vitória dos trolls, a vitória de estupidez" | Acervo pessoal
 


A jornalista e escritora carioca Cora Rónai, colunista do jornal O Globo e pioneira do jornalismo de tecnologia no Brasil, afirma ter horror da cultura do cancelamento, mas defende o direito de bloquear seguidores que considera inconvenientes. O lema dela é "block é vida, block é saúde!". "Block e cancelamento são coisas diferentes. Para quem administra uma página com algum movimento, como eu faço, o block é praticamente uma ferramenta terapêutica, porque lima os trolls dos comentários e permite uma conversa saudável entre os demais. O cancelamento é a vitória dos trolls, a vitória de estupidez. Trolls não entram para dialogar, mas para ofender e provocar, e com isso acabam afastando quem não quer guerra”, argumenta. 


Ela revela os critérios que leva em conta para avaliar quem merece ser bloqueado em suas redes sociais e que ficam impedidos de se manifestar sobre suas postagens e sobre comentários de outros seguidores. "Bloqueio muito, sobretudo no Facebook. Eu estava meio afastada do Twitter, mas voltei há coisa de um mês e comecei a bloquear lá também. Discordar de mim pode, não pode xingar, não pode ofender. Não pode provocar os coleguinhas. Às vezes bloqueio também quando percebo que uma pessoa com meia dúzia de seguidores quer surfar na popularidade da minha página e puxar a brasa para o seu candidato. Da última vez que contei, os bloqueados eram para mais de cinco mil, mas isso foi há alguns anos. Hoje deve ser o dobro disso, ou mais. Costumo dizer que já bloqueei o equivalente à população de uma pequena cidade”, diz. 


Cora acredita que a agressividade demonstrada nas redes em relação a opiniões contrárias às que alguns internautas defendem não é um fenômeno recente. "A questão é que, desde que as redes surgiram, as pessoas podem se manifestar à distância e no anonimato com muita facilidade. Eu acredito que talvez a agressividade já estivesse lá, mas não tinha como ser exercida. Há países com mais cultura política do Brasil, em que as pessoas estão mais habituadas ao diálogo e aos debates. O exemplo óbvio é a França. Mas quando a estupidez relinchante se manifesta, todo mundo bloqueia por igual. A paciência humana tem limites”, avalia. 


Apesar de defender o direito ao block, Cora enfatiza que a opção de bloquear pessoas agressivas não tem nenhuma ligação com censura. "Censura seria se eu quisesse impedir alguém de se manifestar na sua própria página. Na minha página é preciso seguir o regulamento da casa. Dá muito trabalho manter a conversa fluindo numa página onde cada post gera centenas de comentários. Não tenho equipe, trabalho sozinha, tenho só 24 horas no dia e uma vida inteira para cuidar fora das redes. Sou humana, erro muito e é claro que, em dias de mau humor, acabo carregando a mão no block. Mas felizmente ninguém vai morrer ou sofrer (muito) por causa disso”, conclui. 


Medo de ser cancelado pode gerar comportamento superficial  

 

Sylvio Schreider: "“Todo mundo tem medo de ser cancelado, isso vai sendo usado como uma ameaça"
Sylvio Schreider: "“Todo mundo tem medo de ser cancelado, isso vai sendo usado como uma ameaça" | Ricardo Chicarelli/ Arquivo Folha 19-07-2019
 


O psicanalista Sylvio do Amaral Schreiner, que assina a coluna Mundo Vivo, publicada todas as segundas-feiras pela FOLHA, explica que sob o ponto de vista psicológico e comportamental a cultura do cancelamento pode trazer benefícios e prejuízos. “Esse poder de cancelar vai mostrar que algumas coisas têm que ser revistas, alguns conceitos, alguns comportamentos e atitudes que não podem mais ser aceitos. Então, nisso, a gente pode dizer que é um benefício. No entanto, o cancelamento é um ato radical, quando talvez não foi possível diálogo ou não se quis um diálogo. Umas pessoas cancelam porque o outro é diferente. Aí já é um prejuízo, porque não se aceita algo que não é condizente e coerente com uma vida digna, mas não se aceita algo porque é diferente”, diz. 


Schreiner destaca ainda que o risco de ser cancelado pode acabar gerando comportamentos superficiais na internet. “Todo mundo tem medo de ser cancelado. Isso vai sendo usado como uma ameaça, uma forma de tortura. Nestes casos, ao invés de fazer a pessoa refletir e se transformar, começando a agir consigo próprio e com o outro de uma maneira mais saudável, o medo do cancelamento faz com que a pessoa fique imobilizada, querendo agradar e ser agradada. Um curte o outro pra que o outro curta. Vai ficando uma coisa meio superficial. E não é verdadeiro”, avalia.  


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