Cultura da Mu-Dança
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de janeiro de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
O governo passado do presidente Fernando Henrique, Malan, Weffort e cia., falava muito que era preciso modernizar o Brasil, modernizar a economia, modernizar a cultura e a arte nacional. Pois bem, se pararmos um pouco para pensar o que foram esses 8 anos de mandato baseados no pressuposto da modernidade, então devemos nos reportar aos conceitos pregados pela arte em nosso país, pelo menos desde a década de 20, particularmente a Semana de 22, em busca de uma identidade nacional, por um lado, e os pressupostos das vanguardas históricas, por outro, ocorridas principalmente na França.
Era diretriz desse movimento modernista pensar o objeto de arte dentro dos códigos e da estética próprias deste meio, quer dizer, pregavam a idéia da ''arte pela arte''. Uma arte que deveria desenvolver uma linguagem onde composição, cor, harmonia, etc. se bastasse para resolver os códigos artísticos, onde obviamente havia (e há) um alfabeto desenvolvido por iniciados para iniciados. Como se dizia: uma pintura não representa, ela é.
Mas quando isso foi aplicado à área econômica, 70 anos depois, o que se viu foi o debate entre especialistas discutindo uma nomenclatura hermética, de acesso apenas a um pequeno número de pessoas capaz de decifra-los. Nós, os mortais comuns, sentíamos fora e impotentes diante de tantas palavras novas que surgiam a cada momento. Por fim, nossa sensação era a de ter se tornado um incômodo para o deus Mercado, por não conseguir corresponder àquilo que era esperado de nós. A premissa que propunha que o capital financeiro deveria se sobrepor ao capital humano era indisfarçada.
Na área da cultura, nada foi mais emblemático do que o ex-ministro Francisco Weffort dizendo que a pasta que administrava era um setor ''contingencial'' da política governamental. Acendendo um charuto na hora da posse do novo ministro Gilberto Gil, em uma sala fechada e cheia de gente e depois querendo viajar de jatinho da FAB para São Paulo, nosso antigo ministro, conhecedor profundo de Guimarães Rosa e Machado de Assis, acreditava que a Cultura era uma modalidade a serviço dos ''clássicos'' e voltada para as políticas das grandes empresas, como o Itaú e a Petrobrás, que usavam dinheiro público para promover eventos de grande porte.
Esse foi o desafio que o governo que passou quis enfrentar. Agora isso deve sofrer uma revisão. Se na política econômica ainda ''se reza a cartilha do FMI'', como diz o escritor Luis Fernando Verissimo em um de seus recentes artigos na imprensa cético com a via única adotada pelo governo Lula ao menos escutamos aqui e ali seus ministros falarem de ''conceito ampliado'' em economia, colaborações mútuas em áreas diferentes, preocupação com a realidade social, contemporaneidade, enfim, incorporação de novos conceitos que estão mais próximos da estética que a arte vem empregando a partir, pelo menos, da década de 50, do que àquelas do modernismo.
Mesmo essa incorporação do modelo ''neoliberal'' do governo passado não deixa de ser um sintoma de que, para a história, nada deve ser simplesmente descartado, ainda que o choro da senadora Heloisa Helena diante da posse do novo presidente do Banco Central mais afinado com a ideologia do governo predecessor continue alertando nossas consciências.
O que muda, de fato, é que a chegada de um homem como Lula no poder parece apontar para um novo espírito de época, uma nova maneira de ver o mundo, talvez menos complicado, talvez mais generoso com os filhos da terra. E como diz a letra da canção de Gilberto Gil, ''O eterno deus Mu dança'': ''mesmo lá, no inconsciente, alguma coisa está clamando por mudança... a gente quer mudança''. E fechar esse ciclo do modernismo e entrar logo para a contemporaneidade, onde arte e vida estejam irmanadas.
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