Cultura contemporânea em debate
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de abril de 1999
Nelson Sato 
Pensar é antimídia, notou certa vez a filósofa da USP Olgária Mattos. A frase, que põe o exercício da reflexão crítica em colisão com a natureza superficial dos veículos de comunicação de massa, vem à tona com o lançamento do livro Dissonância - Escritos sobre Música & outros Ruídos Culturais.
De autoria dos cariocas Marcelo Barbosa e Kadu Machado, o livro pode ser lido como uma tentativa de contestar a provocação da professora uspiana. Traz comentários agudos sobre a cultura contemporânea, reunindo artigos e ensaios publicados na última década originalmente no jornal Algo a Dizer e no suplemento Atualidades do Jornal do Commercio, ambos do Rio.
A maioria dos textos aborda a música, ou parte dela para analisar outros fenômenos culturais. A compilação, escrevem eles na introdução, traduz o esforço de produzir um jornalismo cultural comprometido com valores postos na contramão dos discursos oficiais. Machado é jornalista, e Barbosa é advogado.
O volume foi editado pela Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e Imprensa Oficial do Estado, através da Lei de Incentivo à Cultura. Inclui prefácio do historiador Nelson Werneck Sodré (que morreu em janeiro deste ano) e apresentação do ensaísta Muniz Sodré. No ensaio de abertura, os autores questionam a pensadora americana Camille Paglia, para quem os bens culturais oriundos da chamada indústria do entretenimento vão predominar cada vez mais sobre gêneros mais autônomos de criação.
Para a dupla de autores, entretanto, essa hipótese parece estar sendo desautorizada pelos fatos. Segundo eles, é crescente o surgimento de mídias alternativas oferecendo acessos às informações que antes eram exclusividade de monopólios e corporações seja na área de música, cinema ou TV. Ressaltando a importância da Internet, eles cogitam a possibilidade de se estabelecer uma linha direta na qual os artistas possam desenvolver uma atividade diretamente para o público (quase) sem a presença de intermediários.
Os demais ensaios tratam de temas como o neoliberalismo na cultura, o lazer catártico, a vanguarda musical e a contracultura. Já os artigos abordam personalidades como Villa-Lobos, Stravinsky, Gilberto Gil, Mozart, Matisse, Chico Science, Alceu Valença, Frank Sinatra, Tinhorão e Paulinho da Viola; além de assuntos como cafonice, música eletroacústica, ritmo, bossa nova, história em quadrinhos, estética pop e o filme Rio 40 Graus (de Nelson Pereira dos Santos).


