Dois grupos representantes do Paraná estão na lista do Projeto Nacional de Artes Cênicas, desenvolvido pela Secretaria de Apoio à Cultura do Ministério da Cultura, em parceria com a Caixa Econômica Federal. Entre as 29 propostas selecionadas estão as montagens teatrais ‘‘A Lua é Minha’’, produção londrinense do grupo Cemitério de Automóveis, e ‘‘Saudades de Sião’’, de Paulinho Maia - Wellington da Silva Produções, de Curitiba.
As propostas foram selecionadas pela Comissão de Habilitação do Projeto Nacional, que dispõe de uma verba de R$ 1,2 milhão destinada ao financiamento e patrocínio de montagens de espetáculos de teatro, dança e ópera. Representantes de nove estados brasileiros conseguiram a aprovação: Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe e São Paulo.
A produção do Cemitério de Automóveis - que está radicado em São Paulo - tem estréia prevista para outubro, em Londrina. Segundo a produtora Christine Vianna, o grupo conseguiu uma verba de R$ 32 mil (divididos entre patrocínio e financiamento). ‘‘O empréstimo é depositado em conta corrente e o patrocínio vai sendo liberado conforme as prestações de conta do grupo’’, explica. Com esse dinheiro, o pessoal do Cemitério de Automóveis pode colocar a mão na massa: vão começar os ensaios e preparar a estréia de outubro.
‘‘Esse projeto é muito importante, assim como as leis de incentivo’’, diz Christine Vianna, alegando que sem esses apoios fica difícil produzir arte no Brasil.
A montagem ‘‘A Lua é Minha’’ tem texto de Mário Bortolotto, que também assina direção, sonoplastia e iluminação. ‘‘É um texto inédito, que fala de um artista plástico em crise existencial e que não consegue mais produzir. Até que sua marchand contrata uma modelo para resolver o problema’’, conta Bortolotto. ‘‘A idéia é transformar a perda em arte. A história poderia ser a de qualquer artista, aqui no caso, é um artista plástico’’, comenta.
O texto visa explorar esse conflito do artista, o cerceamento da criação pela sobrevivência, mostrando a diferença da obra como criação estética e como produto de consumo. A montagem vai tentar passar o universo do artista plástico, as forças que estão por trás da criação, o nível de interferência dos conflitos pessoais e econômicos no desenvolvimento da obra.
Mário Bortolotto adianta que a cena do espetáculo passa-se em apenas um ambiente (o atelier do artista) e a direção prima pelo trabalho de atores. ‘‘Eu uso apenas luz geral, sem muitos efeitos, pouca maquiagem e figurinos realistas. E no elenco são apenas três personagens, o que dá para aprofundar mais o trabalho de cada um.’’
Em ‘‘A Lua é Minha’’ estarão no palco os atores Everton Bortotti (que interpreta o artista, João Luís), Aline Abovski (a modelo, Fabiane) e Christine Vianna (a marchand, Ana). A montagem tem figurino assinado por Nélio Pinheiro e cenário de Flávio Fontana.
Ainda em outubro, o grupo realiza em Londrina a Mostra de Teatro Cemitério de Automóveis - 16 Anos, com apresentações de cinco espetáculos: ‘‘Será Que a Gente Influencia Caetano?’, ‘‘Postcards de Atacama’’, ‘‘Medusa de Rayban’’, ‘‘A Lua é Minha’’ e ‘‘As Crianças do Velho Quarteirão’’ (montagem que está para estrear em São Paulo, no TBC).
Mário Bortolotto também vai lançar em Curitiba, agora em setembro, o livro ‘‘Seis Peças de Mário Bortolotto - Volume II’’. Depois do lançamento, o grupo Cemitério de Automóveis permanece na capital para apresentar três espetáculos no Teatro Payol, como convidado da Fundação Cultural de Curitiba.
O outro projeto paranaense selecionado pela Secretaria de Apoio à Cultura é o da montagem ‘‘Saudades de Sião’’, texto de Flávio de Souza dirigido por Paulinho Maia e produzido por Wellington da Silva Produções Artísticas. Sem data de estréia marcada, o espetáculo deve estar nos palcos de Curitiba ainda este ano.
Paulinho Maia diz que a peça conta a história de dois irmãos siameses que depois são separados. ‘‘No mundo existe tanta coisa em cima da gente, que você acaba perdendo a individualidade. Esse texto do Flávio de Souza é como se fosse uma saudade dele mesmo’’, diz. Para Maia, as obras do autor (entre elas ‘‘Sexo dos Anjos’’ e ‘‘Fica Comigo Esta Noite’’) são sempre muito engraçadas e giram em torno de situações como o medo da morte, o papel do ser humano diante de tudo que o cerca. ‘‘O Flávio de Souza tem um texto bom de trabalhar. Ele tem poder de carpintaria teatral e com isso a gente consegue ir longe. Este é o terceiro texto dele que eu trabalho.’’
‘‘Saudades de Sião’’ tem no elenco dois atores: um deles é Isidoro Diniz, o outro ainda não foi escolhido. O cenário também é assinado por Paulinho Maia; o figurino é de Zenor Ribas, iluminação de Beto Bruel e sonoplastia de Celso Pirata.
Para Paulinho Maia, o Projeto Nacional de Artes Cênicas é mais um caminho para conseguir realizar montagens. ‘‘Acho que os empresários deveriam tomar mais consciência disso. É arte, é bom! Ainda mais em Curitiba, onde o teatro faz parte da gente, onde as pessoas gostam de teatro’’, observa. E foi através de um outro projeto, aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, que Paulinho Maia conseguiu montar seu novo espetáculo, ‘‘Assim que Passem Cinco Anos’’, que estréia no dia 1º de outubro, às 21 horas, no Guairinha.
A montagem é uma adaptação de Maia - que também dirige a peça - para o texto de Federico Garcia Lorca. ‘‘Esta é uma das poucas obras surrealistas de Lorca e considerada uma das mais poéticas, na qual o autor revela muito da vida dele’’, explica o diretor. ‘‘O texto é uma surpresa, as pessoas vão se envolver muito. Fala da pessoa querendo viver... e mesmo com todas essas preocupações, Lorca fez um texto mágico, no qual o público vai viajar.’’
Sete atores estão no elenco de ‘‘Assim que Passem Cinco Anos’’. O espetáculo marca a volta aos palcos do ator Aristeu Berger, que atuará ao lado de Fabiana Ferreira, Sandra Gutierrez, Isidoro Diniz, Leandro Borgonha, Fabiana Jacomel e Jackson Carli. O grupo se apresentará de quarta a domingo, sempre às 21 horas, numa temporada de duas semanas.Arquivo FolhaO londrinense Mário Bortolotto assina o texto e dirige ‘‘A Lua É Minha’’ que foi aprovado para receber verbas do MINCJackeline Seglin

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