CULTURA AFRO-BRASILEIRA - A liberdade é uma longa estrada
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domingo, 19 de novembro de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Entre as previsões sociais mirabolantes que já se ouviu por aí, essa é capaz de derrubar do berço esplêndido da democracia racial até o mais aguerrido defensor da mestiçagem brasileira - o elo encontrado por sociólogos do calibre de Gilberto Freyre para levantar a bandeira da identidade nacional, que na obra ''Casa-Grande e Senzala'' arruma um lugarzinho na sala para que o mulato se exiba como elemento dessa conciliação.
Num exercício de futurologia na infância da República, alguns teóricos acreditavam que até 2012 a sociedade brasileira estaria totalmente salva ao se tornar praticamente branca, amparados na tese de que com o fim do tráfico de negros e a imigração européia esse processo seria natural.
O tempo se engarregou de ser senhor também nessa previsão e os defensores da inclusão dos negros e de ações afirmativas se colocaram na linha de frente da luta contra outras discriminações que ainda emparelham com o espaço que os afro-descendentes têm na sociedade.
Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal Fluminense e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Gisêlda Melo do Nascimento, autora do livro ''Feitio de Viver - Memórias de Descendentes de Escravos'' (Eduel), corre atrás dos efeitos da escravidão no imaginário do negro que é convidado a partilhar do discurso da democracia social, mas que, na prática, sabe que não é nada disso.
Gizêlda ainda passou pelo seu crivo o discurso oficial. O trabalho se revelou surpreendente ao colocar no palco da discussão também a mulher negra, despida do estereótipo das mulatas de Sargentelli e que, atrás desse biombo, escondia uma figura de rosto materno.
Para chegar a essa intimidade da alma negra, Gizêlda pegou a linha do trem da Central em direção ao subúrbio carioca, desembarcando entre outras periferias em Morro Agudo, onde se chega pelos trilhos em 2h30 e de ônibus em no mínimo 5 horas - no Rio quanto mais distante do centro mais a população vai se tornando negra. Todo esse trabalho foi para produzir a tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro e que resultou no livro.
Na Semana Zumbi dos Palmares e às vésperas do Dia Nacional de Consciência Negra, comemorado amanhã, Gizêlda analisa a inclusão negra e ações afirmativas a partir dessa ótica.
Num país em que as mulheres afro-descendentes são as que mais morrem pela primeira causa de morte materna - a hipertensão arterial não tratada na gravidez - assim como da quarta consequência - o aborto inseguro - na comunidade negra elas representam as que mais lutam por inclusão social.
''Essa visão da mulher negra relacionada à maternidade não é necessariamente atribuída à mãe biológica, mas à avó, irmã, madrinha. Qualquer mulher é revestida dessa condição. Elas assumiram esse papel por necessidade, tendo que criar formas de sobrevivência'', afirma a professora, acrescentando que a negra está se afastando cada vez mais do imaginário casting do Sargentelli, principalmente as jovens que têm mais consciência sobre o seu papel na sociedade.
Numa ponte em que num dos lados está a visão crítica do negro, que não adota o discurso vitimista, mas de uma performance de superação, os afro-descendentes vêem que do outro lado a modernização da sociedade, a partir da República, anda de braço dado com a democracia racial e de mal com qualquer projeto de inclusão.
''Ainda é cedo para avaliar os resultados dos ações de inclusão dos negros. Vejo com otimismo a democratização das universidades, que estão fazendo jus à terminologia 'universidades'. Houve um movimento nesse sentido e espero que as consequências sejam boas. Mexer com as universidades serve pelo menos para discutir as relações raciais'', avalia.
Para Gizêlda, a participação das Organizações Não-Governamentais (ONGs) ainda são insuficientes para conseguirem quebrar muitos grilhões, não tendo força para chamarem a atenção da sociedade.
Ela puxa uma cadeira para a participação maior de estudiosos e pesquisadores negros, que podem contribuir para avançar as discussões sobre os afro-descendentes. ''Precisamos de negros para falar sobre as nossas coisas. Não pode existir exclusão no discurso já que os outros falam sobre nós, estudam a nosso respeito. Porque nós também não tratamos das nossas coisas? Assim vamos conseguir ter uma consciência crítica'', destaca.
Na opinião da professora, a História e a Sociologia ajudaram a plasmar apenas a visão da contribuição cultural do negro, lembrando que no Rio de Janeiro existem sociólogos com uma análise crítica e que tentam descongelar esse estereótipo.
Apesar de que às vésperas da Abolição, somente 5% dos negros ainda estavam cativos, como apontam pesquisas recentes, sendo que grande parte já era alforriada, livre por reconhecimento ou laços de parentescos, a liberdade está no fim de uma estrada muito longa.
Há nove anos ao desembarcar em Londrina, Gizêlda lembra que se surpreendeu com o nome de uma das principais avenidas, a Higienópolis, que faz referência ao processo de higienização no Rio de Janeiro, expulsando os negros dos cortiços, relegando-os a se escorarem nos morros.
Ao conhecer a Rua João Cândido, achou que a homenagem ao ''Mestre-Sala dos Mares'', que comandou a Revolta da Chibata, seria uma espécie de redenção londrinense, mas logo percebeu o engano e que o homenageado era outro personagem.
''É preciso uma mudança muito grande para tornar o negro e as suas questões visíveis'', conclui Gizêlda.
Serviço: ''Feitio de viver - memórias de Descendentes de Escravos'' de Gizêlda Melo do Nascimento. Editora: Eduel. Preço: R$ 36,00 à venda na livraria da Eduel, no Campus da UEL.


