CULTURA - Idéias na bagagem
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - João Caponga é um africano de 52 anos. Ele tem cinco filhos e sustenta a prole e a mulher com bicos que faz nas ruas de Angola. Não chamaria muito a atenção não fosse por um motivo: João, assim como milhares de africanos, é um sobrevivente de uma das guerras mais longas da história mundial, história que é contada em seu próprio corpo. Durante o conflito, João teve uma das pernas decepadas e agora, num país que teoricamente vive em paz, aprende a conviver (e a sobreviver) com a nova realidade. João vai ser um dos personagens de um livro que está sendo provisoriamente chamado de ''O Retrato da Paz''.
Composto pelo livro, uma exposição fotográfica e futuras palestras, o projeto começa - na prática - hoje, com o embarque dos jornalistas curitibanos Leandro Taques e Júlio Cesar Lima para Angola. Durante 40 dias, os jornalistas vão percorrer 13, das 18 províncias que formam o país, num roteiro pré-estabelecido que tem como objetivo contar a história de um povo que está aprendendo a viver com a democracia. Pessoas mutiladas, como João, vão compor apenas um dos capítulos da obra, que tem previsão de lançamento já no primeiro semestre do ano que vem.
A idéia do projeto nasceu no início do ano, quando o fotógrafo e jornalista Leandro Taques viajou à Angola, motivado por questões pessoais. ''Eu sempre quis conhecer aquele país. No ano passado, acabei conhecendo um estudante de uma universidade aqui de Curitiba que era angolano e ele me deu algumas dicas'', conta.
Chegando na África, em abril deste ano, não demorou para Taques ter a idéia de organizar um projeto naquela região. Lá mesmo fez os primeiros contatos com a Petrobras, empresa que vai patrocinar integralmente a empreitada. O jornalista ficou três meses viajando por Angola e já trouxe o projeto formulado mentalmente na bagagem. Já no Brasil, convidou o amigo também jornalista Julio Cesar Lima para integrar o projeto. Lima já havia sido parceiro do fotógrafo em uma longa viagem pelo Afeganistão, em 2002, que rendeu uma exposição de fotografias, além de uma série de palestras sobre o tema.
Dessa vez, os dois vão traçar, em fotos e textos, uma realidade ainda desconhecida pela maioria das pessoas. ''Assim como João, esse cara que eu conheci e fotografei em Angola, existem milhares de pessoas com situações semelhantes. Nossa idéia é retratar histórias de vida dessas pessoas que possam contar um pouco da realidade daquele país'', conta Taques. Pessoas mutiladas durante ou depois da guerra (nas centenas de minas que ainda existem em algumas regiões); refugiados; jovens que começam a viver a democracia agora são apenas algumas das situações que o projeto vai abordar.
O livro terá uma média de 150 páginas. ''Será uma grande reportagem, seguida de um editorial de fotos'', adianta o fotógrafo. Para percorrer Angola, Taques e Lima vão ter à disposição um carro e dois guias, um deles motorista. ''Ainda é muito perigoso andar por alguns lugares de Angola, por isso precisamos estar acompanhados'', explica.
O país está passando por mudanças drásticas depois de um período de guerra que matou mais de um milhão de pessoas entre 1970 e 2002. Mesmo depois da proclamação da independência, em novembro de 1975, a guerra fratricida do país durou até o primeiro trimestre de 2002. Se forem considerados os movimentos pela independência, iniciados em 1961, o país ficou 38 anos mergulhado em conflitos.
Para Júlio Cesar Lima, o projeto de retratar essa realidade pós-conflito soma-se a uma pesquisa pessoal, iniciada na década de 80. ''Desde essa época eu me interesso e pesquiso a cultura africana, desde a política internacional, até a questão da independência'', revela. O jornalista esclarece que a intenção do projeto é relatar como a sociedade angolana vive depois do conflito, como está o desenvolvimento econômico e como as pessoas estão lidando com a reconstrução do país.
''Além disso queremos traduzir para as pessoas a diversidade cultural de Angola''. O livro terá edição bilingue, em inglês e português, e será lançado em diversas capitais brasileiras. Os jornalistas partem às 18 horas deste domingo para a longa jornada e retornam apenas no final de dezembro.


