CULTO A MARLEY CONTINUA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de junho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Bob Marley ressurge das cinzas outra vez. Periodicamente renovada, a idolatria em torno do rei do reggae ganha as reverências da TV paga com a exibição de dois especiais, além de se intensificar no mercado editorial com o lançamento da biografia Queimando Tudo.
Paralelamente, a Warner Bros. prossegue a produção do filme sobre o músico jamaicano, e o cantor Gilberto Gil anuncia para o final do ano o início das gravações de um CD dedicado ao ídolo. A homenagem televisiva começa amanhã à meia-noite, na Fox, com a apresentação de um concerto-tributo que teve a participação de Rita (ex-mulher de Bob) e Ziggy Marley (filho).
Entre os convidados figuram artistas de diversos gêneros musicais como Lauryn Hill, Jimmy Cliff, Erykah Badu, Tracy Chapman, Chrissie Hynde, Queen Lafitah e Busta Rhymes. Na próxima terça-feira será a vez do Multishow prestar as honras às 16 horas reunindo clipes, trechos de canções e entrevistas com outras tantas personalidades algumas delas se repetindo nos dois programas, caso de Erykah Badu e Lauryn Hill.
Lauryn, aliás, é a mais cotada para interpretar Rita Marley no longa-metragem sobre Bob a ser dirigido por Ron Shelton. O filme é baseado na biografia Queimando Tudo (Catch a Fire), de Timothy White, que a Record está lançando no país. O autor é jornalista da revista Billboard, bíblia da indústria fonográfica americana. O título do livro é emprestado do álbum que fez Marley impactar o mundo, em 1973, transformando-o no embaixador do reggae.
O livro traz a história de um herói do Terceiro Mundo. É um calhamaço de 550 páginas que conta toda a saga do astro, morto prematuramente aos 36 anos com câncer no pulmão e um tumor maligno no cérebro. A primeira versão do volume saiu em 1983, dois anos depois da morte do biografado. Mas a edição brasileira é atualizada trazendo inclusive informações recentes sobre o mundo do reggae.
A leitura, porém, é indigesta: dezenas de páginas terão que ser ultrapassadas para chegar à trajetória do artista propriamente dita. A obra traça um panorama da Jamaica dissecando sua política, sua religião, os movimentos negros no continente e os caminhos musicais tomados pela ilha até desembocar no reggae. O imperador etíope Hailé Selassié, endeusado pelos rastafaris, é uma figura onipresente ao longo dos capítulos iniciais.
O rastafarianismo, filosofia abraçada por Bob e seus companheiros, é destrinchada em minúcias. A faceta menos ilibada do músico também é trazida à luz mostrando suas brigas de rua e sua constante infidelidade para com as mulheres (dezenas delas lhe moveram processos de paternidade). A obra revisita ainda os concertos de Marley, que transformava as ocasiões no palco em verdadeiras celebrações com direito a gritos de Jah (o tratamento rasta para Deus) e chamamentos de vibrações positivas.
O relato traz importantes revelações sobre as investigações da CIA (que o via como um propagador das drogas), o assassinato do amigo Peter Tosh (morto a tiros em 1987), a figura controversa de Rita Marley (sobre a qual paira a suspeita de ter falsificado a assinatura do ex-marido para abocanchar a maior parte de sua herança) e a saga musical de seus descendentes.
No final do volume, o autor embutiu uma discografia básica de reggae e da obra completa de Marley, cujo legado parece perseguir a perenidade.


