Cult lança novo pacote
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 1999
Luiz Zanin Oricchio Agência Estado 
Cult, o selo para vídeo da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, lança mais um excelente pacote com três filmes: Um Instante de Inocência, de Moshen Makhmalbaf, Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar, e Bent, de Sean Mathias. Todos merecem atenção, mas em níveis diferentes.
Primeiro Almodóvar, já que o mais famoso diretor espanhol da atualidade está fazendo furor em Cannes com seu novíssimo Todo Sobre Mi Madre. Maus Hábitos guarda ainda marcas da fase heróica do desenvolvimento do artista. Almodóvar dá vazão, abertamente, a um temperamento anarquista e anticlerical, na melhor tradição espanhola. Na história, Yolanda Bell é a cantora de cabaré que leva vida desregrada. Quando vê o namorado morrer de overdose, busca consolo espiritual em um convento de monjas. Nessa casa de edificação moral vai encontrar um ambiente bem semelhante ao da Madri do lado de fora, a Madri da movida - a loucura noturna da fase pós-franquista.
Dá para apreciar o filme por seu iconoclastismo divertido. Faz rir em algumas passagens. E o riso é aquele do tipo libertador, que se produz a cada vez que um preconceito é derrubado, que um dogma é contestado, que uma verdade absoluta é desmentida. Nem sempre é assim, infelizmente. Há passagens absolutamente sem graça, de um humor envelhecido e pouco nuançado. No entanto, essa mesma disposição de espírito - libertária - vai reaparecer mais tarde, nos melhores trabalhos de Almodóvar. Já temperada pela maturidade e por um senso de sutileza maior. Maus Hábitos deve ser considerado filme de ensaio.
Já Um Instante de Inocência é obra de maturidade. Makhmalbaf, um dos mais prolíficos cineastas de seu país, decide retornar a um episódio de juventude, quando militava na guerrilha contra o governo do Xá e chegou a ferir um policial para roubar-lhe o revólver. Vinte anos depois, o policial vai ao encontro de Makhmalbaf, já então cineasta famoso, e pede para participar de um filme.
A história cai como luva para um diretor que, como outros do Irã, ama trabalhar na zona de sombra entre a realidade e a ficção. Propõe ao policial que façam um filme sobre aquele episódio do passado. E o processo de filmagem joga luz sobre alguns fatos misteriosos daquela época. Entre eles: a mulher que viveu com o policial tanto tempo teria sido a isca para a emboscada que ele sofreu. Verdade? Ou ficção? Quando o diretor é Makhmalbaf, fica difícil decidir. E não é tão importante assim. Fundamental é a inteligência com que tema tão ambíguo é tratado.
Bent, dirigido por Sean Mathias, é baseado na peça de Sherman Martin sobre a luta de um homossexual para escapar com vida de um campo de concentração. Max (Clive Owen) é um playboy de vida promíscua colhido pela perseguição aos judeus e minorias promovida pelo Reich. A história é simples. Max tenta fugir com seu amante, Rudy, mas é detido e enviado para o campo, onde se apaixona por um enfermeiro. O tema, banal também, mas cheio de ressonâncias, fala da falência da noção humanista de trato com o semelhante em períodos de trevas políticas. Pena que a origem teatral do texto tenha contaminado o filme. Ainda assim é importante.


