Um show gravado ao vivo, e que tem o mesmo frescor hoje, como há 30 anos, quando lotou o Teatro João Caetano numa única noite, no Rio de Janeiro, inacreditavelmente está à disposição em CD para os japoneses, mas no Brasil é encontrado nos sebos em velhos bolachões. O histórico encontro de Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e Grupo Época de Ouro poderá finalmente sair do acetato para ganhar a tecnologia digital graças ao empenho que virá da nova presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio, Marília Barbosa da Silva.
Pesquisadora de música brasileira e socióloga, reconhecida pela qualidade de suas biografias - é a autora de livros relatando as vidas de Paulo da Portela, Silas de Oliveira e de Cartola, lançado recentemente em Curitiba - Marília acaba de assumir o MIS. É a sopa no mel:
- Sempre fui administradora, mas nunca tive a oportunidade de utilizar o que aprendi enquanto administradora. Sempre trabalhei na área de contratos na administração pública. Agora vou juntar a minha paixão que é a cultura, com o meu know-how e a minha habilidade, que é a administração. Espero poder fazer tudo aquilo que critico porque os outros não fazem. Vamos ver se me dão chance, pois temos é que tratar o fato cultural. Ele é a maior riqueza que nós temos. Sem conhecer o passado, vive-se mal o presente e não se constrói direito o futuro.
Uma das prioridades de Marília é reabilitar o selo MIS. ‘‘Quero fazer um trabalho idêntico ao do Leon Barg, da gravadora Revivendo Música, utilizando o que temos lá dentro’’, contou à Folha. São diversos títulos que fazem a delícia dos apreciados de música brasileira, hoje transformados em raridades.
Dos lançamentos do passado os mais conhecidos são os três discos do show dirigido por Hermínio Bello de Carvalho. Inclusive, o diálogo entre Jacob e Elizeth, que está no terceiro volume, abriu o livro de Sérgio Cabral sobre a vida da cantora. Trechos do espetáculo foram parar em CD, mas não é a mesma coisa.
A versão original só foi negociada com os japoneses porque os empresários bancaram a quantia pedida por Paulo Valdez, filho de Elizeth. Aqui foi inviabilizado porque ‘‘era muito dinheiro’’, segundo Marília. ‘‘Pena que ele entendeu aquilo como herança e não como bem cultural comunitário’’, lamenta.
Encantada com a Oficina de Música de Curitiba, Marília Barbosa pensa em desenvolver trabalho semelhante no Rio de Janeiro. ‘‘Quero fazer isso imediatamente’’. Se no Paraná o projeto vingou, por que não vingaria entre os cariocas? A viabilidade é total, tomando-se por qualquer aspecto. ‘‘Os músicos que vêm à Curitiba são de lá e são nossos amigos. Eles estão disponíveis’’, explica a presidente do MIS.
Como o museu é uma fundação - Fundação Museu da Imagem e do Som -, uma de suas características é que ele pode tentar se auto gerir. Marília quer atacar por esse lado para atuar de forma independente. ‘‘O que vou tentar é uma série de programas que gerem recursos, possibilitando nosso crescimento e que possamos reinvestir no museu, sem necessidade de esperar verbas’’, planeja.
Sem grandes ilusões, a presidente do museu argumenta que ‘‘cultura é vista como produto de terceira categoria’’, e concorda que ‘‘realmente há fome, mendicância, segurança’’. Então não dá para esperar muito; tem mesmo é que correr pela raia paralela e tentar a multiplicação de recursos com criatividade.
Idéias é que não faltam. Como o MIS tem sede na Lapa, por que não adaptar um espaço para um bar? Não será um lugar comum, avisa. ‘‘Quero fazer o bar da cultura, dentro de uma visão de resgate. Fazer ali um café tipo Lapa dos anos 30, e colocar lá um chorinho, um samba’’. O melhor do Rio, na zona historicamente noturna do Rio.
CartolaAntes de chegar ao posto máximo da FMIS, Marília Barbosa circulou por áreas próximas. Desde os tempos de estudante ela vive nas malhas do samba, transitando pelos bastidores das escolas de samba, conversando com algumas das importantes testemunhas das histórias que vão parar em seus livros biográficos.
‘‘Cartola - Os Tempos Idos’’, escrito em parceria com Arthur de Oliveira Filho, lançado pela Editora Griphus, tem suas raízes fincadas em meados dos anos 70, quando Marília conheceu o compositor da Mangueira, levada pelas mãos de sua amiga Lygia Santos, filha de Donga. Foi um encontro emocionado, pois desde pequenina Marília ouvia a música de Cartola.
O pai era apaixonado por Chico Alves, tinha todos os seus discos e uma das canções que encantava a menina era ‘‘Divina Dama’’. ‘‘Quando ouvia, ficava imaginando um baile de máscaras se acabando e o moço procurando a amada, que ele desconhecia sem a máscara’’. O sucesso tinha música e letra de Cartola.
A valorização de Cartola chegou atrasada, mesmo assim a estudante achava ‘‘engraçado’’ que ele, a essas alturas extremamente reconhecido, desse-lhe atenção, a tratasse com carinho. Ficaram amigos e a partir dali, ela passou a acompanhá-lo. Inclusive, esteve em Curitiba quando de sua passagem pelo Teatro do Paiol, encerrando a programação do ano de 1975.
Preocupada com a memória musical brasileira, Marília Barbosa confessa que já se aborreceu muito com o descaso do País em se tratando de história. ‘‘Não sei se porque o tempo é que vai passando e a gente vai ficando mais velha’’, o certo é que hoje tem um novo olhar para esse descaso.
Uma viagem à Europa foi marcante para que isso acontecesso. Andando pelas cidades do Velho Mundo, deparava com casas que são mais velhas que o Brasil. ‘‘As casas têm mil anos; aí você chega em Brasília (na época estava morando lá) e a capital vai fazer 30 e poucos anos’’.
Como o próprio País ainda não chegou aos 500, ele tropeça nos mesmos erros que os outros, entende a escritora. ‘‘Eu acho que os nossos grandes defeitos não são exclusividade nossa’’, continua Marília. ‘‘Se traçarmos um paralelo entre nosso País e os outros, como se fossem pessoas, veremos que o Brasil é um adolescente. Ele ainda não tem consciência de si mesmo’’.
Para exemplificar como isso ocorre, cita o espetáculo montado em homenagem a Cartola, no Canal da Música, na abertura da segunda fase da 17ª Oficina de Música. No dia seguinte ao show, Marília dirigiu-se ao maestro Roberto Gnattali, para pedir uma cópia da gravação, que para ela poderia muito bem transformar-se em CD. Foi aí que soube que não havia registro. O único foi feito pela TV Educativa.
‘‘A pessoa responsável pelo som não gravou. Aí você vê que é um problema intrínseco esse de lidar mal com a memória do País. Como você vai exigir que um político, um empresário, um banqueiro tenha essa sensibilidade se uma pessoa responsável pelo som de um espetáculo belíssimo como aquele não gravou?’’, conclui.Mauro Frasson‘‘Temos é que tratar o fato cultural. Ele é a maior riqueza que nós temos’’, afirma Marília Barbosa da SilvaZeca Corrêa Leite

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