De um lado, o Brasil, sob a alcunha de Maria Bethânia. Do outro, Cuba, com Omara Portuondo representando a pequena ilha. Desse encontro, abençoado pela ancestralidade, o resultado que ainda revela gratas surpresas. Primeiro, o contato. Depois, a gravação do disco, que também deu origem a uma turnê. Agora, palavras acompanhadas de imagens.
A Editora Nova Fronteira lança o livro ''Omara e Bethânia: Cuba e Bahia'' com artigos e fotografias que revelam similaridades entre os dois países que se confundem em suas cores, gentes, ruas, culturas e temperos.
Com imagens de Jô Name e Tatiana Altberg, e textos de artistas e pensadores, a publicação é apresentada em um primoroso estojo, cuja edição é limitada e numerada, incluindo o DVD ''Omara Portuondo e Maria Bethânia'', lançado simultaneamente pela gravadora Biscoito Fino. Uma obra de arte para ser lida, ouvida e visualmente apreciada.
A primeira a escrever é a cubana, que deixa transparecer sua poética ao comentar que os dois países têm a alegria como princípio - ''deve ser por causa do mar'' - além de enfatizar seu antigo desejo de conhecer Bethânia: ''Eu admirava seu temperamento, sua maneira de falar, a cor de sua voz (...) que cria uma aura de sutileza, de segurança''. Para quem a música não tem fronteira nem idioma, Omara afirma que tudo é possível.
Já Maria Bethânia resume que desse encontro resultou o relato de duas vozes femininas do mundo de hoje. ''Dona Omara é de uma inteligência e sensibilidade raras, e juntas fizemos um disco de um Humanismo absoluto, no sentido pleno da palavra. Nele está a música cubana, seus compositores e músicos. Nele está a música brasileira, seus compositores e músicos.''
Na sequência, o poeta, compositor e escritor Arnaldo Antunes fala sobre as forças primitivas que emergem da reunião de vozes e tradições culturais das duas artistas: ''Evoca o arrepio da música, a contundência e a doçura da presença negra nas Américas, com seus mitos, suas lendas, seus encantamentos (Joaquim Nabuco, via Caetano, em 'Noites do Norte')''.
O escritor cubano e crítico de artes Frank Padrón intitula seu texto com uma frase extraída do filme de Win Wenders: ''Cuba e Brasil: tão longe, tão perto...'', afirmando, também, que dos dois países seria possível dizer o mesmo que uma poeta porto-riquenha expressou sobre as semelhanças entre seus povos ao afirmar que são, ''de um pássaro, as duas asas'', embora, quem sabe, não se repare demais nos elos, tão fortes e evidentes, que formam esta especial ligação.
Nélida PiÀon, que dispensa apresentações, afirma em seu emocionante artigo que Maria Bethânia, ''com seu canto narra a história dos sentimentos, dos tempos imateriais. Aquela artista tão convicta quanto nós que um país carece de artistas e criadores para existir, para ser narrado, para ter uma justificativa moral''. Também assinam ensaios a jornalista e apresentadora Mônica Waldvogel e a escritora Lya Luft.
O livro, muito além de retratar a marcante parceria musical entre Maria Bethânia e Omara Portuondo, é um projeto que restabelece a todas as pontes imagináveis que unem Brasil e Cuba, muito mais pela cultura que por ideologias.

SERVIÇO
- Livro e DVD 'Omara e Bethânia - Cuba & Bahia'
Editora - Nova Fronteira e Gravadora Biscoito Fino
Quanto - R$ 130
Site - www.novafronteira.com.br

mockup