Punta Arenas - Em 1520, o português Fernão de Magalhães (1480-1521) fez algo mais do que audacioso. Algo próximo a uma maluquice, na visão de seus contemporâneos. Capitão de uma frota de embarcações a vela e com lemes de madeira, o português descobriu uma ligação entre dois oceanos, um deles até então praticamente desconhecido.
À nova passagem, deu o nome de Estreito de Todos os Santos e à porção de terra ao redor chamou de Patagônia. Não ficou nisso. À parte mais austral batizou de Terra do Fogo e ao oceano recém-descoberto, Pacífico. Magalhães, que queria encontrar um novo caminho até as Índias Ocidentais, acabou por eternizar-se como o descobridor de um dos pedaços de mundo mais inóspitos, brutos e bonitos. Estava redesenhado o mapa-mundi.
Essa mesma região, chamada para sempre de magalhânica, é hoje explorada com todo conforto e toda a tecnologia de embarcações dedicadas ao turismo. Com bandeira chilena, e até o fim de abril, cruzeiros como o Skorpios III e o Mare Australis zarpam de Puerto Natales e de Punta Arenas, respectivamente, para singrar o Estreito de Magalhães, o Canal Beagle, o Cabo de Hornos e o Seno Última Esperança, entre outros, além de muitas enseadas, baías e fiordes.
As viagens podem durar três ou quatro noites, dependendo da rota. Durante a navegação, os turistas são convidados a participar de palestras e atividades que muitas vezes remetem ao tempo de navegantes pioneiros, como Magalhães ele ganhou um monumento no centro de Punta Arenas, um dos portos mais movimentados da Patagônia.
Instalados em confortáveis cabines climatizadas, os passageiros embarcam, de fato, numa expedição a um dos rincões mais remotos do planeta. Mudam a rotina. Acordam cedo, alguns dias antes dos primeiros raios de sol, para despertarem os cinco sentidos ante grandiosos glaciares formados em meio à Cordilheira dos Andes.
Desembarcam para explorar terras selvagens, de uma beleza dura e intocada e algumas vezes até amedrontadora. Nos momentos de reflexão e há muitos no decorrer do cruzeiro são capazes de se sentirem minúsculos, insignificantes. ''Muitas vezes questionei a existência de um Deus... Depois dessa viagem, me parece que já não cabe dúvida'', disse o diretor-comercial português Werner Gruner, de 34 anos, diante da imensidão azul e branca do Glaciar Pía.
Os mais empolgados quase gritam ao extravasar a emoção de estar ali; os mais contidos se guardam o direito ao isolamento. ''É preciso parar para ver o que há além desses monstros gelados, observar os detalhes e as muitas figuras quase transcendentais formadas no gelo'', divagou o instrutor e guia chileno Rodrigo Fuentes, de 33 anos, que há 7 trabalha no Mare Australis.
Mas todos, sem exceção, têm de entrar no ritmo do dia-a-dia a bordo. São, agora, antes marujos que meros espectadores. Os desembarques realizados nos pontos de interesse ao longo da navegação provam isso. Vestidos com roupas impermeáveis, salva-vidas e botas de borracha, os turistas deixam a nave principal e sobem em botes infláveis para chegar ao objetivo. No começo, o procedimento de embarque e desembarque em terra é feito com certo receio. Depois, acostumam-se e tudo fica mais simples e natural.
Tanto que dá até para encarar o desembarque no lendário Cabo de Hornos. Magalhães esteve próximo de chegar nele, que é a última fronteira continental antes da Antártida e foi descoberto em 1616 por uma dupla de armadores holandeses. Navegar no extremo sul, onde há ondas de 4 metros e ventos de 140 quilômetros por hora, custou a vida de mais de 10 mil homens em cerca de 800 naufrágios. Hoje, no entanto, com suporte tecnológico a experiência pode ser desfrutada com segurança por qualquer um, desde que as condições climáticas assim queiram.
São experiências únicas que o turismo torna acessível hoje, num lugar outrora envolto em lendas e aventuras que deram origem a relatos impressionantes. Sucederam-se expedições históricas na região.
Uma delas a bordo do HSM Beagle, nave que levou sir Charles Darwin e o comandante Fitz Roy a uma viagem lendária, que resultaria na elaboração da teoria da seleção natural das espécies. E o Estreito de Magalhães foi palco também do jogo de esconde-esconde entre o corsário inglês Francis Drake e o comandante espanhol Pedro Sarmiento de Gamboa, que alimentou o imaginário popular dizendo que a Patagônia era uma terra de gigantes. Agora, exatos 484 anos depois da maluquice de Magalhães, os turistas comemoram a façanha bebendo uísque escocês com o gelo milenar dos glaciares. Um privilégio para poucos.

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