Filme de Sylvio Back sobre o ‘‘poeta do desterro’’ integra hoje a programação do Festival de Berlim, cumprindo o papel, segundo o cineasta, de ‘‘planetarizar’’ o personagem brasileiro
Traduzir filmes é uma tarefa bem diferente, e mais simples, do que traduzir poesias. Pensando nisto, o cineasta Sylvio Back resolveu lançar o roteiro tetralíngue (em português, inglês, espanhol e francês) do seu mais recente filme ‘‘Cruz e Souza - O Poeta do Desterro’’, que será apresentado hoje na Alemanha, na programação do Festival de Berlim.
‘‘Quem faz legendas e traduz filmes não é um especialista em poesia’’, afirma Back. Com medo de que todos os ‘‘ecos e rimas’’ do poema de Cruz e Souza se perdessem, ele optou por entregar a tarefa a especialistas.
‘‘O resultado está na tela’’, diz o cineasta. E também na compilação de 274 páginas (ainda sem data prevista para lançamento em Curitiba) que contêm todas as traduções executadas por Steven White, Walter Costa, Leonor Scliar-Cabral e Marie-Helene Catherine Torres. A capa do livro é uma criação do poeta e designer Guilherme Mansur.
Back conta orgulhoso que este é o maior volume de obras de Cruz e Souza que já foi traduzido. ‘‘Havia pouca coisa em francês e espanhol, mas absolutamente nada em inglês’’, comenta. No filme existem cerca de 60 poemas e todos foram literalmente traduzidos nos três idiomas.
Sua principal preocupação era a de que se perdessem tanto o beat afro-brasileiro de Cruz e Souza como a própria sofisticação e o colorido verbal dos seus poemas e prosa poética, que são a base do roteiro do filme. Com as traduções legítimas, Back avalia que o longa-metragem está cumprindo o seu mais nobre papel que era o de ‘‘planetarizar’’ a figura e a obra do poeta.
Lançado nacionalmente no primeiro semestre do ano passado, ‘‘Cruz e Souza - O Poeta do Desterro’’ já está cumprindo uma longa trajetória internacional. O filme foi recentemente convidado especial no 2º Encontro Internacional de Cinema de Cabo Verde (África).
No 29º Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz (Portugal), o longa foi duplamente laureado: recebeu o prêmio ‘‘Glauber Rocha’’ de Melhor Filme dos três continentes (Ásia, África e America Latina) e Menção Honrosa pela ‘‘pesquisa de linguagem’’ outorgado pela crítica internacional.
Em dezembro, o filme estreou em Caracas (Venezuela), onde foi exibido na Cinemateca Nacional e no Instituto Latinoamericano ‘‘Romulo Gallegos’’, dentro da quinzena ‘‘Brasil em Caracas’’. No Brasil, participou do 11º Festival de Cinema, Televisão e Vídeo de Natal (RN), em que ganhou o prêmio de Melhor Figurino, dado à catarinense Lou Hamad.
Ainda no circuito nacional, o filme foi concorrente na categoria Melhor Fotografia, para Antonio Luiz Mendes, no Grande Prêmio de Cinema Brasileiro, em Quitandinha, Petrópolis (RJ). Back comemora ainda o fato de que no dia 13 de maio, o longa-metragem fará sua estréia na televisão, no Canal Brasil.
Mas a maior vitória, entre tantas, talvez seja mesmo a inclusão de ‘‘Cruz e Souza...’’ no pacote de 13 filmes selecionados pelo Programa de Promoção Internacional do Cinema Brasileiro. As fitas estão agora em Berlim e depois serão levadas para o mercado de filmes dos principais festivais de cinema do mundo, como o ‘‘American Film Market’’, em Los Angeles, Cannes, Cartagena, Locarno, Montreal, San Sebastian, Veneza, África do Sul, Londres, Calcutá, Habana e outros.
Ao lado de ‘‘Cruz e Souza...’’, no pacote do cinema nacional, estão longas como ‘‘O Auto da Compadecida’’, de Guel Arraes; ‘‘Cronicamente Inviável’’, de Sérgio Biancchi; ‘‘Villa Lobos’’, de Zelito Viana; ‘‘Quase Nada’’, de Sérgio Rezende e ‘‘Amélia’’, de Ana Carolina.
‘‘Mais do que uma amostragem diversificada, este é um raio-x do cinema brasileiro dos anos 90’’, comenta Back. ‘‘Temos um panorama completo que inclui documentários, históricos, comédias, grandes bilheterias e filmes contemporâneos’’.
Apesar de já ter estado várias vezes no Festival de Berlim - a última foi em 1997 com o longa-metragem ‘‘Yndio do Brasil -, Back se diz surpreso. ‘‘Estou absolutamente encantado. Isto é muito importante para o filme’’, comenta.
Em fase de colher louros pelo sucesso de ‘‘Cruz e Souza...’’, Back está longe de se acomodar e já prepara o seu novo trabalho. ‘‘Lost Zweig’’ será rodado nas cidades do Rio de Janeiro e de Petrópolis (RJ), a partir de julho.
O filme irá retratar a última semana de vida do pensador austríaco Stefan Zweig e de sua jovem mulher, o que significa voltar ao Carnaval de 1942. Totalmente falado em inglês e com um orçamento estimado em R$ 5 milhões, o longa-metragem terá figurinos assinados por Beth Felipecki (‘‘Os Maias’’), fotografia de Antonio Luiz Mendes (‘‘Cruz e Souza...’’) e direção de arte de Ronald Teixeira.
‘‘A coluna vertebral do filme já está pronta’’, brinca Back. O roteiro original foi escrito por ele e reescrito com a ajuda do irlandês Nicholas O’Neill. Em relação ao elenco, ele ainda mantém suspense. Revela apenas que os papéis principais deverão ser vividos por atores europeus e que um ator americano, de Hollywood, será escalado para o papel do cineasta Orson Welles.
Back lembra que, no Carnaval de 1942, Welles estava no Rio de Janeiro rodando o documentário ‘‘It’s All Time’’ e que tal trabalho nunca foi concluído.

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