Cruz e Souza e A Terceira Morte de Joaquim Bolívar são difíceis mas atraem público
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sexta-feira, 26 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Brasília, 26 (AE) - Uma noitada densa, mas nada chata, teve no Cine Brasília um público mais sereno, quase reflexivo, para assistir e aplaudir ao segundo programa da mostra competitiva, na quinta. Os dois longas, "Cruz e Souza - o Poeta do Desterro", de Sylvio Back, e "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio Cândido, conseguiram superar suas dificuldades de saída e obter boa empatia com a platéia.
Dificuldade do filme de Back: a opção por uma cinebiografia nada didática, em que os dados factuais da trajetória do escritor ficam resumidos a algumas palavras num letreiro inicial. O restante são poemas e cartas, muito bem escandidos pelo ator que interpreta o poeta, Kadu Carneiro. Back faz um belo trabalho de luz e sons, procurando menos evocar uma biografia objetiva que um estado de alma, um estar no mundo, próprio do universo poético em geral e simbolista em particular. Trata-se de uma proposta ousada, que resvala em alguns momentos na monotonia, mas cumpre seus objetivos. Exige atenção. Mas atenção é o mínimo que se pede a quem se dispõe a acompanhar um festival de cinema.
Dificuldade do filme de Cândido: o trabalho com o comentário político, do qual as gerações mais jovens parecem fugir como o Diabo da cruz. Não foi o caso em Brasília, mas convém não generalizar. Não deve ser programa para shopping center, por exemplo. O diretor evoca três momentos capitais da história recente do País pelo olhar de um barbeiro com idéias de esquerda, o Joaquim Bolívar do título, muito bem interpretado por Sérgio Siviero. Em suas três vidas, Bolívar irá encontrar um opositor sistemático na figura do coronel Gaudêncio (Othon Bastos). Esse embate mudará de figura, segundo a fase em questão
da época do golpe militar de 1964, passando pela anistia, em 1979, e desembocando no cinzento fim de milênio que nos é dado viver, sem idéias, sem sonhos, sem utopias.
Nenhum dos dois filmes apresentados é perfeito. Longe disso. Pode-se sentir falta de algumas referências internas em "Cruz e Souza". Não é preciso ser didático para atingir a clareza. Mas a clareza, no fundo, é fruto de um árduo trabalho de depuração, tanto na poesia quanto no cinema, e, nos dois casos, um ideal raramente atingido. Em Joaquim Bolívar, o que às vezes pode atrapalhar é o oposto: certa preocupação em explicitar idéias, que flerta com o didatismo, sem exatamente cair nesse vício, o da clareza excessiva, e que costuma levar a pontos de cegueira na leitura da obra. São reparos que não tiram o interesse de dois filmes muito especiais.


