'Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro' tem sessão especial emocionada
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domingo, 09 de janeiro de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
Rio, 09 (AE) - Havia espectadores chorando no fim da sessão especial de "Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro", realizada ontem (08) de manhã. O local era o reformado Cine Odeon, na Cinelândia, que funcionou como centro do Festival do Rio, em 1999. Atendendo a um pedido dos líderes da comunidade negra do Rio, o diretor e produtor Sylvio Back fez a exibição de ontem. Mas não fez uma sessão fechada. Foi multirracial e cultural. Negros e brancos choraram, irmanados na mesma emoção diante do resgate que Back faz da vida e da obra do maior poeta negro da língua portuguesa.
É um belo filme. Cruz e Sousa é um dos grandes injustiçados da literatura brasileira. Maior nome do simbolismo no País, o filho de escravos alforriados viveu sempre estigmatizado, artística e socialmente. Convencido de que só a poesia pode resgatar a obra de um poeta, Back criou um poema visual em 34 estrofes que dramatizam poemas e cartas como mote narrativo. Logo no começo, letreiros contam rapidamente a história da vida e morte do poeta nascido em Nossa Senhora do Desterro, nome original de Florianópolis, daí a dupla apropriação que Back faz. Cruz e Sousa é o poeta do Desterro porque lá nasceu, mas também porque viveu sempre desterrado. Cabe acrescentar que o cartaz, sugestivamente, apresenta mais três versões internacionais para esse título: "The Banished Poet", "El Poeta Proscrito" e "Le Pote Banni".
Um dos grandes atores negros do País e um ativista sempre chamado a manifestar-se quando o assunto é racismo, Milton Gonçalves resumiu sucintamente a opinião sobre o que vira
no fim da sessão de "Cruz e Sousa": "É ótimo." Mais predisposta a falar, Ruth de Souza, a lendária atriz que foi para o Festival de Veneza, nos anos 50, com "Sinhá Moça", uma produção da Vera Cruz e, desde então, desenvolveu a carreira no cinema, no teatro e na televisão, confessou, entre lágrimas, que aquele era o filme mais bonito que viu nos últimos tempos e não apenas entre as produções nacionais.
Cruz e Sousa sempre foi uma referência forte para Ruth, que recitou, publicamente, os poemas dele. Ela resumiu a questão numa frase: "Como um branco, o homem mais branco que conheço, conseguiu fazer esse filme que vai tão fundo na dissecação da alma negra?" Ela própria respondia: "É o mistério da arte, Cruz e Sousa é arte e o Sylvio, um verdadeiro artista." Era o que também dizia Maria Adeal. Há pouco tempo, ela tentou montar um espetáculo baseado nas poesias do mestre simbolista. Chocou-se mais do que com um muro de hostilidade e indiferença, com um completo desconhecimento das pessoas, dos eventuais patrocinadores e colaboradores, sobre quem era Cruz e Sousa.
"O filme faz um trabalho de resgate sensacional; estou emocionada", dizia ela. Outra que se dizia emocionada - e manifestava isso nos olhos ainda cravejados de lágrimas - era a atriz Zezé Motta, a Xica da Silva de Cacá Diegues. Zezé lembrou que fez um curta com uma diretora de Santa Catarina sobre Cruz e Sousa, mas ele não foi muito bem recebido pela crítica nos festivais. Ela espera, agora, que Cruz e Sousa receba o reconhecimento que Sylvio Back merece. Sua emoção, como ela contou, era dupla: "O filme tocou-me muito; acho que essa vontade de ir fundo na obra do Cruz e Sousa não é só artística; é uma coisa política, também, e eu acho que essa paixão é que falta no Brasil."
Emoção pelo filme, pelo personagem, mas também porque, pela primeira vez, ela via impresso num filme o agradecimento ao Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), que dirige no Rio. Nele, estão todos os nomes de artistas negros no País. O centro ajuda a colocá-los no elenco de filmes, peças e novelas. "Muita gente que está no filme foi indicada pela gente; agradeço profundamente ao Sylvio por esse trabalho tão sensível à contribuição da cultura negra à história do País." Era o que também destacava Da Gama, o guitarrista do Cidade Negra, de onde surgiu Toni Garrido para ser o Orfeu de Cacá Diegues, na adaptação da peça de Vinícius de Morais que transpõe o mito grego para o morro carioca.
"Já conhecia o Cruz e Sousa e possuía algumas informações sobre sua vida, mas acho muito rica essa história da hostilidade que ele colheu em sua época, até mesmo por parte da Academia Brasileira de Letras." Como Back não se cansa de dizer
Cruz e Sousa era um negro altivo e orgulhoso da sua raça e arte. Não podia ser aceito pela academia criada por Machado de Assis, um mulato que queria ser inglês, nem por aqueles partidários do branqueamento da cultura brasileira. Cruz e Sousa foi pioneiro na questão da negritude no País. "Sua voz vai na veia do negro", como diz Back. Sua poesia lunar será sempre uma metáfora sobre a tragédia de ser negro no Brasil. "Além de toda essa discussão política que levanta, o filme é fascinante como revelação e amostragem da poesia do Cruz", continua Da Gama. Ele afirma: "Vivam os poetas brasileiros, brancos, negros
não importa a cor; viva a poesia que expressa a alma do brasileiro."
Back não foi o único a viver o momento de glória no fim da sessão de "Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro". "Estou em estado de raça", ele diz. O filme foi saudado com aplausos entusiásticos e gritos de "bravo" que se repetiram por bastante tempo. Depois, formou-se a longa fila para os cumprimentos. Todos queriam abraçar e felicitar Kadu Carneiro, o Cruz e Sousa de Sylvio Back, e Maria Ceiça, que faz Gavita, seu grande amor. Num elenco de grandes atores negros, a surpresa é descobrir uma estreante, uma deusa chamada Danielle Ornelas, à qual Back chegou por meio de Zezé Motta. Maria estava linda, iluminada pela alegria da satisfação. "Estava com medo dessa sessão, mas, agora, vejo que não tinha motivo; o público foi muito acolhedor, muito generoso; esse entusiasmo das pessoas é uma coisa muito gratificante", dizia. Ator inspirado, Carneiro diz em cena, com convicção, os diálogos baseados nos poemas de Cruz e Sousa. Ele está cheio de expectativa, mas também não esconde uma ponta de inquietação quando fala no lançamento de "Cruz e Sousa" nos cinemas, previsto para março ou abril. "Um filme como esse, sobre poesia, corre o risco de ser discriminado como a obra do próprio retratato; espero que tenha uma distribuição à altura de suas qualidades, que não seja marginalizado e jogado no gueto dos circuitos alternativos; temos de ter confiança no povo brasileiro, que tem agora sua chance de saldar a dívida com essa figura extraordinária que foi o Cruz."
Em vários de seus filmes Back foi crítico, fazendo filmes, quase sempre documentários, desmistificadores sobre episódios controvertidos da história brasileira. Aqui, ele continua polemizando, mas no sentido inverso: todo o movimento do filme se dirige para o momento em que Cruz e Sousa é posto, enfim, no pedestal que merece. Mesmo fazendo esse movimento, o filme não é, como Back se apressa a dizer, uma hagiografia. Back confessa que tem dificuldade para falar de Cruz e Sousa: "É meu melhor filme, estou apaixonado." É, realmente, o melhor filme dele, um dos mais belos do cinema brasilero recente.


