Crumb é o presidente de honra da mostra
FOLHA no Google News
Angoulême, França, 25 (AE) - Ele é considerado pelo crítico de arte Robert Hughes o "Brueghel da última metade do século 20". Não é um exagero de Hughes, já que o estilo "exorcístico" de Crumb fez com que ele nos legasse uma versão moderna da "Torre de Babel" de Pieter Brueghel.
Por meio de um recurso de comunicação de massas, Crumb rejeitou a tentação de ordenar um mundo ético e afundou-se em busca de sua estranha e íntima verdade particular. Não fez isso do nada: observador atento do american way of life, ele descobriu, horrorizado, que era fruto de um sociedade doente, com todas as implicações que isso carregava.
Para retratá-la, retratou a si mesmo com rara crueldade, sem se poupar nem fazer o mesmo com seus parentes. Em 1995, esse estilo chegou ao ápice: ele desenhou duas páginas para a "New Yorker" na qual retratava a própria reação e de sua mulher, Aline, ao filme "Crumb", de Terry Zwigoff, documentário que escancarou suas perversões particulares.
A influência de Crumb no mundo inteiro é gigantesca. No Brasil, tem pelo menos dois discípulos incondicionais: Angeli e Glauco. O francês Jean le Guay, o Jano, ídolo em seu país, curva-se a Crumb. "A primeira vez que vi um cartum dele eu tinha 16 anos e levei um choque: nunca tinha visto tanto sexo e drogas num gibi; não havia isso em Asterix e nos quadrinhos franceses", confessa.
Crumb, geralmente pouco afeito à badalação, é o presidente de honra da edição 2000 do Festival de Angoulême. Consta que ele tomou a decisão, recentemente, de mudar um pouco sua imagem pública - que julgou abalada após o filme de Terry Zwigoff. A exposição que o festival lhe destina mostra as múltiplas facetas de sua personalidade complexa: suas influências (James Gillray, Harvey Kurtzman, Walt Kelly), o caráter de crítica social de seus desenhos, suas obsessões, seu amor pela literatura, o lado místico e o de músico nostálgico.
Outra grande mostra dentro da exposição destaca os desenhos que Crumb realizou na França recentemente, durante seu "exílio" em Aveyron. Ele desenhou (algumas vezes em guardanapo de papel de restaurantes) as ruas das pequenas cidades e tocadores de acordeão, entre outros flagrantes. Crumb provou, no redemoinho cultural dos anos 60, que qualquer um - dotado apenas de boas idéias - poderia fazer cartum. Mas foi além: seu traço aparentemente "sujo" esconde um senso preciso de movimento e uma anarquia criativa de proporções e representações.
Ele se situa muito além da crítica ao establishment, criando um divã bizarro para examinar-se - e, por extensão, toda sua geração. Seus personagens autobiográficos, geralmente brancos, anglo-saxões, protestantes, reacionários ou falsamente revolucionários, desnudam a consciência de uma época.
Afrontou as feministas, criando personagens insólitas. Em uma de suas histórias, retratadas no álbum "O Melhor de Crumb" (publicado no Brasil pela L&PM), ele chega a levar uma surra de um grupo de feministas, até que dobra sua líder e entra (literalmente) no ideário da perseguidora. Suas mulheres grandes e amedrontadoramente selvagens - como a Yéti - arrancam homens sérios e entediados de sua rotina familiar para devorá-los como canapês sexuais.
Mas ele também divertiu seus pares e fez muitas outras coisas, como por exemplo capas de dicos - fez "Cheap Thrills", para Janis Joplin. (J.M.)