Jotabê Medeiros
Agência Estado
Angoulême, França - Robert Crumb virá com seu carro, dirigindo desde a região de Aveyron, onde vive um exílio voluntário há mais de dez anos. Na noite da entrega dos prêmios do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, o gênio excêntrico dos quadrinhos underground tocará jazz com um grupo de amigos, na banda doméstica intitulada Les Primitifs du Futur (Os Primitivos do Futuro).
O norte-americano Crumb (criador dos personagens Mr. Natural e do gato Fritz) e os franceses Jean ‘‘Moebius’’ Giraud e Albert Uderzo (um dos criadores do Asterix) são as estrelas principais desse que é o mais importante festival de comics do planeta, realizado há 27 anos na região de Charente, a 445 quilômetros de Paris e a apenas 45 de Cognac - cidade onde surgiu o conhaque, o quebra-gelo preferido de dez entre dez cachaceiros.
De hoje a domingo, a pequena cidade de pouco mais de 50 mil habitantes tem sua rotina transformada. Todos os hotéis e albergues estão ocupados por fãs de quadrinhos dos quatro cantos do globo. Mais de 150 mil visitantes são aguardados até o encerramento da jornada. Crumb, geralmente pouco afeito a essas celebrações, é o presidente de honra do festival.
Também haverá uma exposição com o título ‘‘Quem Tem Medo de Robert Crumb?’’, com uma trilha sonora escolhida especialmente para o evento - o desenhista é um admirador da música norte-americana do entreguerras, das big bands e do jazz.
O festival de Angoulême é realizado desde 1972. Naquele ano, foi feita uma pequena exposição chamada ‘‘10 Milhões de Imagens’’, que durou 15 dias. A prefeitura da cidade gostou e instaurou o salão anual. A primeira edição de fato do festival foi realizada em 25 de janeiro de 1974. Hugo Pratt fez o cartaz. Entre os convidados, Burne Hogarth, Harvey Kurtzman, Tillieux e Franquin. -
Nesse período, a França vivia uma efervescência de ‘‘bande dessinée’’ (como os franceses chamam os quadrinhos). Muitas revistas especializadas surgiram, como ‘‘Echo des Savanes’’, ‘‘Fluide Glacial’’, ‘‘A Suivre’’, ‘‘Circus’’ e ‘‘Métal Hurlant’’. Os mais célebres autores de quadrinhos sempre foram a Angoulême, como Hergé (do Tintin), Wil Eisner, Moebius, Gotlib, Tardi e Bilal, entre outros.
O festival mudou a vida em Angoulême, cidadezinha de comércio tímido que passou a ter sua imagem associada aos quadrinhos. Em 1976, a cidade criou um museu e passou a adquirir pranchas originais dos convidados do salão para o acervo. Apoiado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação, o festival estabeleceu-se no calendário francês e chegou a sua forma definitiva, privilegiando a formação de novos artistas com oficinas e ateliês especiais.
Em 1985, o então presidente, François Mitterrand, cria na cidade o Centre National de La Bande Dessinée et de L’Image. Em 1990, o festival caminha em direção à profissionalização e cria um mercado de negociação de direitos autorais. Em 93, quando fez 20 anos, o festival teve como mestres-de-cerimônias Frank Margerin (o autor de Lucien), Morris (desenhista do caubói Lucky Luke). Will Eisner é um dos convidados.
Em 1996, presidido pelo desenhista Phillippe Vuillemin (que compareceu à Bienal de Quadrinhos de Belo Horizonte), o festival instala uma grande exposição de quadrinhos que percorre os Estados Unidos. No ano passado, com uma homenagem a François Boucq, a organização anunciava o maior de todos os festivais, o do ano 2000, que começa hoje.
O Festival de Quadrinhos de Angoulême não é tão espalhafatoso como as comic conventions americanas (a exemplo da San Diego ComicCon), mas é sem dúvida o mais charmoso e importante do planeta. Compará-las seria como comparar o Festival de Cinema de Cannes com o Oscar.
Angoulême representa a ambição artística dos quadrinhos europeus e a criatividade fora dos rígidos códigos da indústria. O festival é extremamente rigoroso também na escolha dos novos artistas que vai mostrar ao público - geralmente, não seleciona mais de dez para a mostra de jovens talentos.
‘‘Obrigado aos quadrinhos que fazem de todos nós heróis’’, agradeceu François Boucq à homenagem que o festival lhe prestou no ano passado. ‘‘Porque os quadrinhos são uma escritura original incomparável, ilimitada, inclassificável, insolente, que nada fica a dever a nenhum outro meio de expressão’’, afirmou o desenhista.
Angoulême é a principal cidade da região de Charente, terra adotada por dois Balzacs famosos, os escritores Honoré de Balzac e Guez-de-Balzac. Enfiada entre montanhas, surgiu no século 17.

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