Muito se esperava, talvez demasiado, desta superprodução. Suas intenções ambicionavam, além de uma fiel, minuciosa reconstrução histórica, também promover ao redor do mundo o conhecimento detalhado acerca da Operação Valquíria. Este foi o batismo, mítico e com ressonâncias wagnerianas, com o qual ficou conhecido um dos vários projetos de atentado contra Hitler, arquitetado pelo alto oficialato do exército alemão e comandado pelo general Claus Von Stauffenberg.
Há uma única maneira de se colocar favoravelmente diante do filme que estréia hoje no País (veja a programação de cinema na página 2). O argumento, de resto histórico, é de final conhecido: a trama foi mal sucedida, Hitler sobreviveu e os ''inconfidentes'', todos os líderes e cerca de outros quatro mil membros da resistência, direta ou indiretamente envolvidos, foram presos e executados.
Um mínimo conhecimento de história contemporânea, segmento Segunda Guerra Mundial, especificamente o capítulo da ascensão e queda do III Reich, impede o espectador de acesso a qualquer ilusão de happy end. Ele vai entrar na sala sabendo de antemão que Hitler não foi assassinado naquele momento, mas se matou com Eva Braun pouco mais de um ano depois do atentado. Assumido como obrigatório pré-requisito o fracasso do plano, torna-se bem mais fácil e interessante acompanhar a narrativa de suspense armada pelo diretor Brian Singer em moldes hollywoodianos clássicos, mesmo com o desfecho desfavorável para os conspiradores que tentavam livrar a Alemanha e o mundo do mal personificado no Fuhrer.
Singer é bom diretor, e já havia provado com dois filmes pequenos mas muito eficientes, ''Os Suspeitos'' e ''O Aprendiz'', antes de ser tragado pela voracidade da mega-indústria, sistema em que fez com aplicação de fã os dois primeiros ''X-Men'' e ''Superman - O Retorno''. Hábil, talentoso e inspirado quanto a dar forma inteligente e coerente às imagens, aqui ele ainda permanece refém do grande orçamento (estimados U$ 80 milhões), mas consegue tornar decentemente suportável a engrenagem material gigantesca em virtude do sólido roteiro que dá fluidez à trama complexa, da originalidade de enfoque e da qualidade cinematográfica.
Nada a lamentar quanto à recriação histórico-geográfica dos vários acontecimentos. Tudo muito criativo e funcional. O mesmo vale para o elenco de estrelas britânicas que compõe o staff de oficiais envolvidos no plano em graus diversos, os ótimos Bill Nighy (general Friedrich Olbricht), Terence Stamp (Ludwig Beck), Tom Wilkinson (general Friedrich Fromm) e Kenneth Branagh (major-general Henning Tresckow) - este misteriosamente abduzido lá pela metade da projeção.
E resta Tom Cruise, o número um encimando a marquise, o foco principal do néon.
Ninguém pode negar, ele é um ator intenso. Mas esta intensidade tem o mau hábito de se tornar a mesma, sempre, de atuação em atuação. A intensidade de Ethan Hunt em ''Missão Impossível'' é a mesma daquele pai que quer salvar os filhos a qualquer custo em ''Guerra dos Mundos'', ou daquele personagem de ''O Último Samurai'', ou do tira futurista de ''Minority Report''. É a mesma intensidade do homem que aperta os olhos, cerra os dentes e proclama aos quatro ventos: ''Sim, eu posso !''. Há uma parcela do grande público que aceita esta postura e gosta dele assim, interpretando seja lá quem for, criando um hipnótico campo magnético e sentimental. No caso de Von Stauffenberg, é muito difícil adequar a forte persona Cruise ao oficial aristocrata mutilado no rosto e nas mãos em combate na África. Assim, quando ele decide arriscar tudo pela pátria, parece mais um dublê em vias de se atirar de cabeça num precipício, precariamente seguro por frágeis arames invisíveis.

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