Crueldades silenciosas
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
A incomunicabilidade dos tempos atuais retratada por dois atores que revelam atrocidades da existência humana contemporânea sem emitirem uma única palavra em cena. Resultado de um amplo trabalho de investigação das relações humanas por meio daquilo que não é dito verbalmente, a peça "Mundomudo" estreia no Filo com sessões hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Zaqueu de Melo. A montagem marca as comemorações das bodas de prata da Companhia Azul Celeste, de São José do Rio Preto (SP), e conta a história de uma dupla de palhaços abandonados no picadeiro de um velho circo.
Durante os 80 minutos de duração do espetáculo, os dois clowns ficam mudos à espera do público. Homens pequenos aprisionados em um espaço enorme, religados pelo jogo estabelecido na convivência e na necessidade mútua. As regras se impõem, e os personagens, atônitos, submetem-se ao destino. "Mundomudo" propõe uma reflexão sobre tudo o que é aprendido como valor, como crença, como cultura, seja numa dimensão maior ou menor, e irão comandar a consciência - e esta determinará o comportamento da sociedade moderna.
"Prestes a completar 25 anos de trajetória, começamos a pensar no espaço que o teatro ainda nos reservava. Nossa inquietude nos levou a mergulhar na linguagem não verbal. Começamos a pesquisar a comicidade e o universo dos palhaços, num processo criativo que durou 16 meses", relata o ator Jorge Vermelho, responsável pela concepção do espetáculo.
Ele relata que no meio do processo de criação da peça, o grupo se confrontou com o universo desértico da obra de Samuel Beckett. "Embora nenhum trecho seja utilizado em cena, tivemos como base 'Fim de Jogo', peça na qual Beckett explora a recorrente dualidade presente na figura do palhaço", destaca Vermelho, que divide a cena com o ator Henrique Nerys.
A dramaturgia da montagem é assinada por Cíntia Alves. "Fizemos o convite para que ela elaborasse um roteiro de ações dramáticas não verbais que tivessem como signo linguagens universais que retratassem dramas das relações humanas que pudessem ser identificados por diferentes plateias", relata Vermelho.
Segundo ele, o público acaba assumindo o papel de coautor do espetáculo. "Ao abrirmos mão do recurso verbal, que seria o primeiro canal de comunicação com a plateia, acabamos nos deparando com reações mais diversas possíveis por parte do público. Isso porque as percepções sobre a peça dependem muito do nível de informação que o espectador tem em relação ao teatro e a todo o seu universo cultural. Essas reações têm servido de um grande aprendizado para toda a companhia", enfatiza.
"Mundomudo" estreou em 2014. "Fizemos temporadas no interior de São Paulo e na capital, participamos de diversos festivais pelo Brasil e estamos chegando a Londrina de uma turnê por oito cidades de Santa Catarina. Na sequência vamos nos apresentar em festivais do Nordeste do País", informa Vermelho.
Serviço:
Mundomudo Companhia Azul Celeste (SP)
Quando Hoje e amanhã, às 19 horas
Onde Teatro Zaqueu de Melo (Av. Rio de Janeiro, 413)
Quanto R$ 25 e R$ 12,50 (meia-entrada)


