O escritor paulista João Antônio (1937-1996) foi um notável cronista do submundo, que frequentou diariamente, não apenas para buscar assunto para seus livros. Mulherengo, bom de copo, andava pelos botequins com a desenvoltura dos personagens retratados em suas narrativas. Despontou nas letras nacionais com com a publicação do volume de contos ‘‘Malagueta, Perus e Bacanaço’’, em 1963, no qual apresentava uma galeria de malandros, prostitutas, escroques e jogadores de sinuca da baixa boêmia paulistana.
  Na biografia ‘‘Paixão de João Antônio’’ (que será lançada hoje em Londrina), o autor Mylton Severiano lembra a tarde de autógrafos e a recepção calorosa do escritor a um grupo de retardatários: ‘‘Ah que bom que vocês vieram!’ Eram prostitutas da Boca do Lixo’’. João Antônio consagrou-se com ‘‘Malagueta, Perus e Bacanaço’’, que rendeu-lhe os troféus Jabuti de autor revelação e de melhor livro do ano.
  De origem humilde, ele fez bicos durante a adolescência e boa parte da fase adulta. Depois, ganhou a vida como jornalista participando da equipe criadora da legendária revista Realidade. Foi como repórter especial do Caderno B que mudou-se para o Rio de Janeiro, convidado para trabalhar no Jornal do Brasil, o diário mais influente daqueles tempos.
  No Rio, adotou a Lapa como o quintal de sua casa e laboratório de observação de tipos e costumes populares. Na época, foi um dos principais ativistas da imprensa alternativa, batizada por ele de ‘‘imprensa nanica’’. Em 1975, morou três meses em Londrina, onde trabalhou no jornal Panorama ao lado de profissionais locais e de nomes consagrados da imprensa nacional como Narciso Kalili, José Trajano, Hamilton de Almeida, Jota, Elvira Alegre e Mylton Severiano.
  Aliás, os textos que publicou no referido jornal estarão disponíveis a partir de 15 de maio no site www.orecadodoslivros.com.br. Na curta temporada pelo Norte do Paraná, escreveu, fez amigos e bateu ponto na Vila Casoni circulando pelos bordéis, botequins e pequenos restaurantes. Só voltou a Londrina 15 anos depois para participar da 2ªBienal de Literatura, espantando-se com as transformações urbanísticas ocorridas na cidade.
  João Antônio publicou duas dezenas de livros, sempre elegendo os excluídos como protagonistas de sua ficção. Chamado por alguns estudiosos de Lima Barreto do século XX, ele não poupava críticas à classe política brasileira. ‘‘Ô, Myltainho, esse povo maravilhoso não merece essa ratatuia de canalhocratas!’’ – dizia ele, segundo reprodução de Mylton Severiano na biografia citada acima.
  Consagrado no jornalismo e na literatura, o escritor nunca deixou de publicar. Mas com o passar dos anos foi aos poucos sendo relegado ao ostracismo. No Rio, costumava ficar vários dias fora de casa, seja por causa de casos amorosos ou em viagens para palestras. No final de outubro de 1996, porém, todos estranharam seu sumiço até seu corpo ser encontrado em decomposição sobre a cama em seu apartamento em Copacabana. Os legistas estimaram que ele havia morrido há três semanas. (N.S.)

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