Tem dias que é assim, preciso de uma dose dupla de scotch. Não tem jeito! A música ruim que toca na rádio começa a me fazer perder a paciência. As faixas de pedestre que decoram a cidade como bibelôs inúteis, me causam pequenos surtos. As discussões a respeito de política, da economia, da falência nacional, injetam no meu sistema uma dose extra de mau humor. As reuniões de pais, onde há fileiras de filhos-troféu, me provocam urticária. As pessoas sabe-tudo, sempre prontas a apontar o melhor caminho, repetindo, incansáveis, a palavra deveria, me dão vontade de sair correndo por aí, sem nunca mais olhar pra trás. Minha cara entediada no espelho faz com que eu pense em uma daquelas coisas malucas de transplante de face. E aí, não tem jeito, eu preciso mesmo de uma dose dupla de scotch.
E olha que ele pode ser qualquer coisa. Pode ser uma volta mais longa de carro, com o som no último (e uma música boa, pelo amor de Deus!). Pode ser uma brincadeira demorada com o Filé, meu cachorro de estimação. Pode ser um bate-papo com uma amiga, onde se é possível descolar uma boa risada, na verdade, uma ou duas gargalhadas. Pode ser o abraço desinteressado de um filho, que faz você se lembrar de que sim, existe o amor verdadeiro. Pode ser um livro delicioso, que de repente faz você entender algum drama seu e dar um passo em outra direção. Pode ser um sexo gostoso, feito sem pretensão, só pra relaxar e dar pro outro um pouco de prazer também. Pode ser um scotch duplo mesmo, tomado sozinho ou com qualquer pessoa. Bem, qualquer não é qualquer, porque qualquer pessoa não existe.
Tem dia que você precisa saber como relaxar. E tem mais, nesses dias você precisa entender que a ordem é se divertir!

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