Crônicas no tablado
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de março de 1997
Sucursal de Curitiba 
Kraw PenasZeca Corrêa Leite: É uma procissão de gente simples que em momentos de confissão colocam para fora as angústia, a solidão, seus amores contrariados e a eterna esperançaOs textos do jornalista Zeca Corrêa Leite, da Folha de Londrina estão de volta ao palco. Há poucas semanas seus poemas foram declamados pelo ator Marcelo Munhoz no Teatro Universitário de Curitiba, em Palavras e Cordas. Agora é a vez de De Tudo o que É Meu, na interpretação de Emilio Pitta, Eliane Campelli e Alexandre Nero (ator e músico), sob direção de Edson Bueno. Será hoje, no evento Segunda na Caixa - Ciclo de Leituras Dramáticas, mantido pela Caixa Econômica Federal, no Teatro da Caixa, em Curitiba.
Se o primeiro recital amparou-se em poesias, De Tudo o que É Meu traz o outro lado da produção literária de Zeca Leite - seus contos e crônicas é que estarão em cena. Com este trabalho abre-se uma excessão: ao invés dos atores apresentarem uma peça, farão leitura dramática de obras curtas. Segundo Emílio Pitta, que trabalhar com poemas, preferindo os contos, há teatralidade de sobra nos textos de Zeca Leite.
Um dos artistas mais conceituados do teatro paranaense, Pitta interessou-se pela produção literária do jornalista alguns anos atrás, quando assistiu a um de seus recitais de poemas.
Fiquei com aquilo comigo, de levar aquelas histórias ao palco. O Zeca usa de muitas imagens, as pessoas e as situações que ele coloca nos contos são corriqueiras, saborosas de serem interpretadas, explica.
Em Palavras e Cordas, Pitta estava mais uma vez na platéia. Assim que terminou o espetáculo procurou o autor e acertou o projeto. O título foi criado mais tarde, numa conversa mantida entre Zeca e Jewan Antunes, coordenador da série do Teatro da Caixa. O jornalista explica:
- Faltava um nome para a noite. Depois de inventarmos uma porção, expliquei ao Jewan que era preciso buscar a síntese de tudo aquilo que era meu e que eu queria oferecer à platéia. De Tudo o que é Meu surgiu nesse momento.
ProcissãoEmbora a ficção comande o espetáculo, há toques autobiográficos em alguns momentos, concorda o autor. Quase todos os textos trazem personagens na primeira pessoa fazendo seus relatos, sejam homens ou mulheres.
É uma procissão de gente simples que em momentos de confissão colocam para fora as angústia, a solidão, seus amores contrariados e a eterna esperança. Percebe-se nas narrativas a simpatia do autor com os personagens, todos eles quase sem nome, carregando dramas diários, muitas vezes sem ter a quem recorrer para dividir o peso do sufoco.
Tem o pai atarantado com a vida, vindo do interior buscar o corpo da filha assassinada, a mulher que abandona o marido, o solteirão que se apruma na janela imaginando que antigos amores passam pela rua.
Em De Minha Vida com Mariinha, Ditinho conta do dia em que ela fugiu, justamente quando a filha ardia em febre. O outro lado do abandono vem de uma mulher que dispara linhas contundentes ao seu homem, num bilhete escrito às pressas, em Bilhete. Diz estar cansada das surras, da eterna insatisfação e as reclamações constantes: da sopa de feijão, do pé de porco, doce de cidra. De tudo. Na última linha, porém, ela deixa escapar cuidados que insistem em ser maiores que a revolta.
Ter meus personagens materializados por Emílio Pitta e Eliane Campelli é uma coisa que nunca imaginei, diz Zeca Leite. É uma honra, sem dúvida, mas caminha lado a lado com a temeridade. Para mim fica a inquietação de dar o melhor, sem saber se conseguirei com os meus textos, estar à altura da arte desses atores.
q De Tudo o que É Meu - de Zeca Corrêa Leite. Direção de Edson Bueno. Leitura dramática de contos e crônicas interpretados por Emílio Pitta, Eliane Campelli e Alexandre Nero. No Teatro da Caixa, hoje, às 21 horas. Rua Conselheiro Laurindo, 280. Entrada franca.


