CRÔNICAS Fotografias
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Paz Aldunate 
Samuel Becket, com olhar severo e distante, sentado à mesa de madeira rústica do que parece ser uma lanchonete de beira de estrada. Foto em preto-e-branco... Bernadette Soubidoux, a menina de Lourdes, rosto rude, sobrancelhas espessas e olhos escuros e receosos. Foto granulada em preto-e-branco... Antonia Merced, ''la argentina'', alta e esguia, expressão enlevada, parece irradiar uma luz especial em sua postura de dança... Vaslav Nijinsky dando sua última pirueta, velho e gordo, braços grotescamente levantados, terno escuro, cabelos brancos e ralos. Imagem surreal em preto-e-branco da loucura que o abateu, roubando-o dos palcos mundiais...
Lendas, mitos, personagens mais do que pessoas. Porém, quando olho para elas descubro corpos densos, rugas, defeitos, brevidade, mortalidade. A humanidade de carne e osso usando roupas, com expressão, cabelos, unhas, pensamentos, fome, sede, sono, sexo. Os mitos são pessoas como eu, simplesmente, primeiramente, e a faísca especial que aparece em suas ações não brilha nestas fotografias, pois, descubro, ela não jaze na imagem, mas no agir...
Há algo de tão banal, real, pesado e opaco nas fotos, algo de tão próximo e conhecido que me deixa desconcertada, pois percebo que as lendas são iguais a mim: carne, ossos, cabelo, pintas, cãs, feiúra, receio, dentes tortos, lábios finos, barriga, unhas roídas... Então me dou conta de que são as ações que elas realizaram que transformaram sua estrutura - ou o nosso olhar. Da carne efêmera e corruptível pode se extrair a manifestação do espírito, porém, esta raramente é captada pela lente de uma câmera.
Todos somos iguais em corpo e alma, pequenos gigantes, breves como um piscar, porém também somos capazes de transcender, de impregnar esta imagem externa com a chama da divindade que abrigamos. Na fotografia vejo a lembrança de um corpo vivo. A história das suas ações me mostra o espírito que sustentava este corpo.
Então, esta é Teresinha do Menino Jesus, tão palpável, tão próxima. Existiu mesmo, e tinha a sua cama, seus sapatos, a sua roupa, com seu cheiro peculiar... Foi neste convento em Lisieux, neste pátio, ao pé desta cruz de pedra, que esta foto foi tirada... E nesta outra ela já estava doente. E nesta, na efermaria do convento, já falava para as suas noviças todas aquelas coisas que li. Estava morrendo, deitada naquela maca cheia de travesseiros... Aqui, Júlio Cortázar, com o cachimbo, grandes olhos escuros, a mecha rebelde caindo-lhe na testa. Adoro as suas histórias surrealistas...
Todas estas pessoas existiram - e existem - para mostrar alguma coisa sobre o que é sermos humanos. E há infinitas opções...! Podemos ser humanos das mais impensadas maneiras, e se conseguirmos mudar alguma coisa e fazer com que a humanidade dê mais um passo - grande ou pequeno - então seremos lenda também.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora; em 2000 participou da antologia da Editora Litteris ''Grandes Escritores do Cone Sul'', com o conto ''A estrela e primeiro sábio''
Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].


