Crônicas do recomeço
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de julho de 2001
Francelino França De Londrina 
No projeto 2.000 Visto Por... vários diretores mostraram sua visão sobre a entrada do novo milênio. Walter Salles fez o emblemático O Primeiro Dia, dobradinha com Daniela Thomas. O diretor espanhol Miguel Albaladejo, bem mais otimista, realizou a emocionante comédia A Primeira Noite da Minha Vida, um filme em que os desencontros entre anônimos desencadeiam uma série de situações engraçadas.
No reveillon de 1999, Manuel (Juango Martinez) e Paloma (Leonor Watling), que está grávida, decidem jantar na casa dos pais de Paloma. Manuel tomou emprestado uma caminhonete de um amigo e no meio do caminho o carro acaba quebrando. Ao mesmo tempo, o sogro (Emílio Gaba) tem o carro roubado, e se depara no fim do mundo com uma depiladora (Miola Fuentes) desprezada pelo namorado (Carlos Fuentes), que foi o autor do roubo do carro. Num quiproquó interminável, desfilam personagens que de perto não são nada normais.
Na comédia A Primeira Noite da Minha Vida, o diretor espanhol Miguel Albaladejo trafega por um momento ritualístico em que todos procuram um novo sentido na vida. Mas algo mágico acontece com a chegada do bebê de Paloma, que nasce num local pobre, quase numa manjedoura. Os desencontros acabaram sendo a primeira noite da vida de todos. Tão esperançoso quanto engraçado, Albaladejo discute como podemos aproveitar as oportunidades para recomeçar.
No filme, encontra-se parentescos com as tragicomédias de Pedro Almodóvar, como no encontro entre a depiladora que espera o namorado e o ricaço. Ela diz algo que remete ao universo de Almodovar: Todos vivem da minha depilação. Mas ainda bem que pêlos não faltam. Lançamento: Europa Filmes. Duração: 84 minutos.
A História de Elian
Não bastasse o caso do garoto cubano sobrevivente da fuga da ilha de Fidel ter sido explorado à exaustão pela mídia internacional, o fato rendeu um filme. A História de Elian, do diretor Christopher Leitch, tira partido do inexplorado, como se o lado oculto da história do garoto, que os noticiários interplanetários não mostraram, passasse a ser verdade. De um lado, os latinos clamando pelo sobrenatural (Elian, o garoto enviado por Deus) e do outro, o frenesi político entre EUA e Cuba. O filme mostra como se constrói um totem americano e acentua a peleja entre os dois lados da família Gonzalez. A dramatização dos fatos une o cinema de lágrimas cubano ao comportamento politicamente correto americano. Para realçar a dramaticidade, as cenas do afogamento da mãe de Elian Gonzalez e do resgate pela milícia americana na casa do tio do garoto foram reconstituídas. Distribuição: Europa Filmes. Duração: 89 minutos.
Alta Fidelidade
Cinco razões para assistir ao cult Alta Fidelidade, de Stephen Frears, (Os Imorais, Ligações Perigosas): 1) O filme é despretensioso, sem a irritante assepsia hollywoodiana. 2) O ator John Cusak é um perfeito Rob Gordon. 3) O elenco soberbo, destaque para Todd Louiso (Dick, nerd e tímido), e Jack Black (Barry, gordo e espaçoso). 4) A história faz uma incursão sonora nos hits das décadas de 70 e 80. 5) O filme traz Catherine Zeta-Jones sedutora e maravilhosa, antes de Michael Douglas.
Rob Gordon, após levar um fora da namorada, faz lista dos cinco foras mais memoráveis em ordem cronológica. Dono de um oásis de discos, Gordon oscila entre um predestinado ao sofrimento e perdedor sentimental. Para quem desconhece o mundinho pop, pode ficar deslocado com alguns nomes e músicas citadas. O tom confessional do garoto do adeus cria um vínculo estreito e imediato com o filme. A questão que Alta Fidelidade apresenta é se vale a pena ser um outsider ou se o melhor é se tornar um yuppie. Não deixe de ver. Lançamento: Buena Vista. Duração: 114 minutos.


