Crônicas da vida selvagem
Ranulfo Pedreiro
Ao balanço dos barcos, os jesuítas viram o vilarejo onde habitavam no Grão-Pará se afastando rio acima. Defensores da conversão dos nativos, os religiosos acabaram protegendo-os, contrariando o ímpeto europeu de escravizá-los. A necessidade da mão-de-obra para facilitar a vida em um ambiente selvagem fazia com que os índios fossem constantemente caçados. O conflito de interesses resultou em diversos levantes e rebeliões por volta do século 17. Até que os jesuítas levaram a pior. O castigo foi a expulsão.
A população ainda comentava o fato quando, atônita, viu as embarcações retornando. Um dos barcos começou a fazer água e as bombas não deram conta. A volta evitou o naufrágio. Não faltou quem visse no fato um desígnio divino. A versão se espalhou e o povoado recebeu novamente os religiosos.
Esta é apenas uma das muitas histórias que permeiam o livro Os Jesuítas - Grão-Pará - Suas Missões e a Colonização - Bosquejo Histórico, de João Lúcio DAzevedo, que a Série Lendo o Pará, da Secretaria de Cultura do Estado, está relançando.
A edição da obra é uma história à parte. A publicação saiu originalmente em Lisboa, em 1901. João Lúcio DAzevedo era um português que viveu no Pará, onde pesquisou a Região Amazônica. O historiador reuniu uma série de documentos até então inéditos para explicar a presença dos jesuítas e sua importância na colonização do lugar.
Considerada uma obra de referência para os estudiosos do Amazonas, Os Jesuítas... passou muito tempo fora de catálogo, até que a Secretaria de Cultura do Pará relançasse esta bela edição fac-símile, contendo - além do português arcaico - um mapa das Missões no Grão-Pará e Maranhão. O texto faz parte do acervo de livros raros do Museu da 1ª Comissão Demarcadora de Limites, de Belém.
As histórias sobre uma região selvagem e pouco habitada se multiplicam numa conjunção de fatores. Enquanto os colonos adentravam o sertão em busca de riquezas, os índios serviam como mão-de-obra escrava para os serviços dos vilarejos. Nesse processo se inserem os jesuítas, que viam nos nativos um trabalho de evangelização. No trabalho, se sobressaiu o padre Antonio Vieira, que desafiou governos com o poderio dos jesuítas e acabou preso pela Inquisição em 1661.
Os conflitos entre a população, a coroa portuguesa e os jesuítas renderam uma série de levantes que tumultuavam, com frequência, a região. Em busca de soluções pacíficas, o padre Vieira sugeriu várias vezes a utilização de escravos negros em substituição aos nativos.
A tarefa dos jesuítas não era fácil: saídos da Europa, enfrentavam condições climáticas desfavoráveis, acentuadas pelo ambiente rústico da Floresta Amazônica. Os religiosos enfrentavam as ameaças da população e também dos índios, que muitas vezes recusavam a conversão. Além disso, o comércio e a falta do pagamento de dízimos despertavam suspeitas na coroa e na Inquisição.
Para o autor, o europeu, ao confrontar o mundo novo, regredia na escala da civilização, produzindo para sua própria sobrevivência. Para sanar tantas deficiências, os vilarejos necessitavam de grandes quantidades de escravos. João Lúcio cita uma carta em que Vieira afirmava: Para um homem ter o pão da terra, ha de ter roça e, para comer carne, ha de ter caçador e, para comer peixe, pescador, e, para vestir roupa lavada, lavadeira, e, para ir á missa ou qualquer parte, canôa e remeiros. (sic) Nos confins da mata, o governador mandava segundo seus interesses, prendendo e degredando desafetos, se intrometendo nos procedimentos da justiça.
Nesta miséria, contrastante com a natureza exuberante, os impostos criados por governo e coroa extorquiam o povo, recaindo sobre fazendas, porções de farinha, madeira, cravo, cacau, couro, azeite, algodão, escravos e até donativos.
Os escravos índios sofriam em contato com a civilização, morrendo com certa facilidade e gerando a necessidade frequente de novos cativos. Acima dos escravos, estavam os colonos propensos ao ócio e à ascensão financeira.
Nas caçadas aos índios, estão registrados fatos trágicos: aprisionados, os nativos viram sua cultura sucumbir à ambição. Índios vendiam parentes como escravos e, não raro, também acabavam aprisionados após receberem o dinheiro. Amarrados, eram colocados em canoas que circulavam pela bacia do Amazonas, até chegar aos vilarejos. A viagem às vezes levava meses, sacrificando mais da metade dos homens escravizados. Nos barcos, os índios recusavam a provisão de farinha. Os mortos eram lançados no rio. Outros pulavam amarrados e eram devorados por jacarés ou piranhas.
Na defesa dos nativos, os jesuítas eram acusados de manter contatos com possessões vizinhas comandadas pelos holandeses, pelo rumo do Rio Negro; com os castelhanos, seguindo pelo Rio Solimões; e com os franceses no norte. Essas notícias eram recebidas com terror pela coroa.
Os detalhes se multiplicam em citações de diversos documentos espalhados pela obra. Mas o texto, em português antigo, é um pouco maçante para o leitor apenas curioso. O livro é mais indicado para pesquisadores em busca de informações com referências. Ainda assim, o leitor comum que folhear as 356 páginas da obra vai encontrar grande volume de informações que explicam a colonização de toda a bacia do Amazonas, sua estrutura social, caminhos, conflitos, aventuras e heróis.
A publicação também torna explícito o massacre que os europeus comandaram sobre os índios brasileiros, fato ignorado nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento. O livro pode ser encomendado por R$ 15,00 no Centro Cultural e Turístico Tancredo Neves, coordenadoria de marketing, 4º andar. Avenida Gentil Bittencourt, 650, Nazaré, Belém do Pará - CEP 66035-340. Ou pelo telefone (091) 241-2333, ramal 134.Texto raro relançado pela Secretaria de Cultura do Pará narra conflitos entre jesuítas, colonos, coroa e escravos na Amazônia colonial
ReproduçãoPadre Antonio Vieira, entre os índios em gravura do século 18: jesuíta teve conflitos com a Inquisição e defendeu a evangelização dos nativos





