Estou feliz. Mas não uma felicidade eufórica, se é que vocês entendem o que eu quero dizer. Talvez Renato Russo descreva melhor o que quero explicar: ''Ainda estou confuso, mas agora é diferente, estou tão tranquilo e tão contente''. 'E isso. A vida tem se apresentado muito incerta-promissora-confusa-excitante-melancólica, tantas coisas contraditórias e ao mesmo tempo tão interessantes. Talvez por isso eu esteja assim: confusa, mas feliz - quase tranquila dentro da minha eterna intranquilidade.
Pois no meio disso tudo, recebi uma ligação da minha mãe com uma notícia bonita: tinha encontrado uma carta que o meu pai tinha escrito para as filhas - eu, criança, e as minhas três irmãs, na época, adolescentes - em 1982, depois de ter passado um mês na UTI, numa fugaz melhora, algum tempo antes de morrer. Lia a carta. É linda, mas não de uma beleza sentimentalóide, trágica. É linda porque são as lições de vida de uma pessoa que viu a cara da morte e começou a perceber, de repente, as coisas simples e belas que o rodeavam. Fala da vida, dá conselhos e fala do amor que sentia por nós. Achei lindo porque o enxerguei ali. Me enxerguei ali também, naquelas palavras.
Deu vontade de compartilhar. Por isso seguem alguns trechos da carta:
''Tenho sentido muito a falta de vocês. Acho que construímos todos algo muito forte que é uma família no sentido de AMOR (aliás seu único e verdadeiro sentido). Daí que não estarmos juntos quando um de nós passa por perigo de vida é muito doloroso. Gostaria de ter vocês todas aqui. Adoro vocês, adoro o fato de vocês serem mulheres. Jamais lamentei o fato de não ter tido um filho homem. Cada vez mais maduro, cada vez mais curto vocês. O difícil é não as prejudicar com tanto amor.(...)
Digo tudo isso para que vocês saibam que eu estou sofrendo sem vocês aqui. Mas, se Deus quiser, em breve estaremos juntos de novo, em boa forma.
Como sempre na minha vida procuro tirar o máximo de proveito de toda e qualquer experiência que passo. Desta, tirei várias conclusões. Talvez seja interessante transmitir as mais significativas a vocês.
A primeira é que a morte não é tão assustadora como se imagina. É e deve ser encarada como um fato ''natural''. Sua chegada é que pode assustar, como pretendeu fazer. (...)
A segunda conclusão é que o maior patrimônio que uma pessoa pode ter é ser querido pelo maior número de pessoas possível. Realmente Deus me deu isto. Vocês não podem imaginar o que eu tenho recebido de telefonemas, telex, etc.
Outra conclusão: não vale a pena complicar a vida. A qualquer momento pode se estar sujeito a uma tragédia como a que ocorreu. E aí? Por isso sempre digo para vocês não esquentarem com as coisas. Amar, por exemplo, serve para dar prazer, e não ansiedade, sofrimento. Quanto às pessoas, jamais esperar mais do que elas podem dar (e todas dão muito pouco de si para os outros. Nós também!). Procurar compreendê-las também, pois amar será a consequência lógica imediata.
De resto, muita garra e muito espírito de luta na vida. Sempre com o cuidado, porém, para não se enrijecer, não se tornar frio.
Ainda, de resto, gozar a vida. Nós a fazemos boa ou má. E, por último, nunca esquecer que não somos uma ilha. Outros gravitam em torno de nós e são sempre envolvidos nos nossos movimentos. Em outras palavras: tudo o que fazemos atinge aqueles que convivem conosco.
Isto tudo tenho procurado transmitir a vocês, graças a Deus, com a ajuda de uma pessoa que é única: a mãe de vocês. Desconfio que vocês ainda não se conscientizaram totalmente da figura ímpar que é a mãe de vocês, a minha mulher. Ela é realmente o eixo da nossa adorável família. Vocês têm que se dar conta que eu devo muito a ela. Muito mais do que vocês podem imaginar. (Ninguém é uma ilha, lembram?)
Enfim, chega por hoje, senão isso vai virar tango. Estou feliz hoje e quis conversar com vocês. (...)
Um beijo do pai que ainda vai dar muito o que falar''.
Ele morreu oito meses depois.

CAROL TEIXEIRA é escritora e autora dos livros ''Verdades & Mentiras'' e ''De Abismos e Vertigens''

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