Dentro do ônibus dois adolescentes conversavam sem papas na língua. Final de dia, e muitos trabalhadores voltavam para casa. O ônibus estava lotado. Foi aí que entraram dois jovens. Com todo fôlego de vida e oportunidades que só a juventude pode oferecer. Então eu escutei um rápido diálogo sobre a noite anterior.
Um dos jovens contava sem a mínima vergonha, que tinha cheirado uma pedra. E havia sido na casa dele. Sei lá por quais motivos, decidira se distrair. Juntou os restolhos de moedas que tinha no bolso e conseguiu somar sete reais. Como o dinheiro ainda não daria, ele foi à casa da vó pedir mais R$ 5.
Agora tinha R$12 em mãos. O suficiente para comprar uma pedra de crack.
Segundo o que contava ao amigo, parecia não ser a primeira vez. Parece que já até tinha um cachimbo guardado em casa. E quando o amigo perguntou se a mãe dele não desconfiava, ele respondeu que sim. Mas, que ele fumava no quarto. Segundo a descrição feita pelo jovem, o efeito do entorpecente "fazia ele esquecer de tudo". Ele relaxava e não se lembrava de mais nada. Pelo menos por aqueles segundos. Ele também explicou onde comprou "o barato". Era só entrar por umas ruas aqui, passar por aqui e ia sair exatamente ali. E pelo jeito, amanh㠖 que ainda seria quinta-feira -, teria mais.
Para a noite ele tinha planos, contou que se encontraria com a namorada, se "desse" posaria por lá. Aliás, ele se lembrou. Hoje era o dia da mãe dele lavar roupa, e dentro do bolso ele havia esquecido preservativos. O colega o questiona, e novamente ele responde: Isso minha mãe vai encanar, vai brigar, vai xingar, mas depois vai ficar tudo bem.

Thais Leite é jornalista em Londrina
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