Domingo de manhã. Minha mulher cantarolava feito sabiá na cozinha. E na mesa, tudo preparado para mim... As delícias de ser casado... Como eu a amava! Espreguicei-me e peguei o jornal. Primeiro vi as tirinhas, enquanto enchia a minha velha xícara de estimação com o delicioso café, passado do jeitinho que eu gostava. Depois de um tempo lendo, uma notícia, quase uma nota de rodapé, chamou a minha atenção.
O primeiro que vi foi a pequena foto de um homem transtornado. Era acusado de ter agredido uma mulher e ateado fogo à sua casa. O detalhe curioso era a explicação do ato. A vítima teria aplicado o golpe da vidente para ficar com todas as economias do homem. O caso é que ele amava a uma mulher em segredo e queria que ela se apaixonasse por ele rápido. "Madame Samantha" prometia trazer a pessoa amada em apenas um dia!
Mas passaram-se meses... o homem estava obcecado. Tanto que não viu todo o seu dinheiro, moto, carro e um terreno irem parar nas espertas mãos de Madame Samantha. Finalmente, depois de um ano sem resultados, o coitado surtou: acusou a vidente de ser uma fraude e pediu todo o dinheiro de volta. Madame, falsamente ofendida, não quis devolver nada, claro. Daí, tudo virou uma tremenda briga. O homem tentou agarrar a vidente pelo pescoço, ela caiu e se machucou gravemente. Ele, não contente com isso, aproveitou todos os véus, cortinas e penduricalhos do "consultório" para começar um incêndio. Vizinhos chamaram a polícia e o homem acabou preso. A vidente, depois que se recuperasse dos machucados, também seria investigada.
Fiquei ali, tentando entender a cabeça de um homem que pretendia que alguém o amasse na marra, pagando para que isso acontecesse... O que podia dar errado? Pois tudo!... Feliz ou infelizmente, os sentimentos são indomáveis!
Então, escutei a voz da minha esposa, que ainda cantarolava pelos quartos, e olhei para a mesa que ela tinha arrumado para mim tão carinhosamente. Sim, ela me amava. Eu sabia, e não tinha oferecido dinheiro nenhum para ninguém convencê-la a gostar de mim. Nesse momento, uma lufada de vento entrou pela janela e desarrumou as folhas do jornal. Quando parou, vi uma das frases clássicas de celebridades, quando se tornam famosas e ricas demais e começam a sair dos trilhos: "O dinheiro compra tudo, menos o verdadeiro amor." E nesse caso, acho que a frase poderia ser um pouco diferente: "O dinheiro traz tudo, menos o amor de alguém que não te ama, seja em um dia ou em um milhão de anos."

Domingos Santos é professor na Fundação Cultural de Ibiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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