CRÔNICAS - Tele-sequestro
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quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Márcio Américo 
Se Alexander Graham Bell tivesse idéia de que seu invento seria usado para o mau, talvez tivesse terminado seus dias como Santos Dumont. O telefone tem sido usado de maneira vil nas últimas décadas. Políticos com suas vozes pré-gravadas me pedindo votos, garotinhas gerundianas me oferecendo planos de saúde, consórcio, água, sexo... Quando recebo uma ligação comum sinto que algo estranho está acontecendo.
Mas de uns anos para cá um novo serviço tem invadido nossos lares: o disk-sequestro. Na maioria das vezes trata-se apenas de presidiários ociosos que, precisando levantar uma grana, ligam aleatoriamente para as pessoas requisitando uma determinada quantia em dinheiro para libertar a suposta vítima.
Muita gente já se sente excluída por não ter recebido este tipo de ligação, alguns procuram psicólogos, tratamentos e, em casos extremos, mentem. Mas há ainda aqueles que ao receberem tal ligação não sabem como agir, embaraçam-se diante do privilégio de terem sido escolhidos entre milhares de brasileiros para participar da Pegadinha de Bangu I.
Para que você não passe vergonha diante de um disk-sequestro fake, aqui vão algumas regras básicas de etiqueta para estas situações:
Antes de tudo certifique-se de que se trata de um sequestro falso. Isto pode ser feito através de perguntas escrutinadoras, por exemplo, no caso de um filho:
- Sequestrado? Aderbal (nome falso), meu filho, me deixe falar com eles! Pelo amor de Deus, meu filho precisa tomar remédios senão ele entra em pânico... Ele falou dos remédios pro senhor? O senhor deu os remédios a ele?
- Demos minha senhora... Mas é o seguinte...
Pronto. Você já sabe que é o legítimo disk-sequestro fake. A partir de agora você deve relaxar e procurar botar pra fora todo stress, dê vazão ao seu lado cômico, explore a situação:
- Nóis queremo 30 mil reais, ou ele morre!
- 30 mil!
- 30 mil! (Este é o preço de tabela)
- Dou 10!
- 10 mil?
- 10 reais! Em vale-transporte!
- O que? A senhora ta brincando. Eu mato seu filho!
- Meu senhor, escute, este menino... Que isto fique entre nós... Este menino não vale 30 mil! Este moleque não tem habilidades profissionais, não quer estudar, insiste que o Corinthians é o melhor time do Brasil e o pior: é emo! O senhor acha que eu vou pagar 30 mil reais por um emo??
- Eu vou matar ele!
- Pelo amor de Deus...
- O que foi?
- Pelo amor de Deus, se vocês foram realmente fazer isto, tratem de dar um sumiço no corpo, não mandem pra cá... Um funeral hoje em dia está pela hora da morte... E o pior, sendo ele emo, todos os amiguinhos emos dele estarão lá... Sabe, até o momento poucas pessoas sabem desta opção dele... Mas com um ritual fúnebre público.... Aquilo vai lotar de emos... E o senhor sabe, se emo já chora às primeiras estrofes de uma canção do Fresno, imagine num velório, será um prato cheio pra eles, vão aparecer emos de outros estados, eles vão transformar o velório do meu filho em um show do Forfun! Não! O senhor por favor não me mande o corpo!
- A senhora tá brincando comigo?
- Eu? Quem tá brincando é o senhor! 30 mil por um emo? Por 30 mil eu compro pelo menos um deputado, uns 30 punks, 60 skinheads ou 30 mil fãs de Bruno e Marrone! O senhor é que tá louco! Fique com ele! Alô... Alô... O senhor tá chorando? É influência dele! Espera aí que eu vou botar o CD do Simple Pan...
- Tut tut tut tut tut tut...
Nisto teu filho, que deveria estar num cativeiro aparece na sala, ainda naquele torpor de quem acaba de acordar.
- Mãe, libera me libera uma grana aí, preciso sair com meus amigos.
- Tome! E não gaste tudo de uma vez!
- O que é isto? 10 reais? Em vale-transporte?
- Meu filho, todo mundo tem seu preço!
MÁRCIO AMÉRICO é escritor, ator e dramaturgo


