CRÔNICAS - Ressurgir
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de março de 2008
Carlos Alberto Cury Harfuch 
Ela; descalça, calmamente caminhava para sua casa interior. Vestia túnica branca lilás esvoaçante, cabelos soltos, flores e pequenos ramos de ervas aromáticos existiam em seus tornozelos, fronte, cabelos e coração. Não foram ali colocados, nasciam do seu próprio corpo. Exalava de si um doce suave perfume, seu caminhar era um volitar sobre terra pedregosa, macia.
Subia uma enorme, altíssima montanha, alcançou o topo, o vento, em seu uivo natural, era o único som que se permitia ouvir. Todo o silêncio daquele instante fez surgir, no horizonte, o sol. Estava lindo, nunca o vira tão lindo assim, nutriu-se dele, fez-se luz, caminhou.
Voltou para o caminho que todos os dias a levava para a casa física. Sentada no meio-fio havia uma menina brincando com uma poça d'água muito branca, cristalina.
- Oi, menina!
- Oi, moça!
- Está esperando alguém?
- Sim, estou!
- E essa pessoa vai demorar?
- Não importa o quanto demore, vou esperá-la. Um dia ela irá acordar e eu estarei aqui para lhe dizer olá!
A rua estava deserta, o silêncio era total, a claridade, muito maior que de costume, se impunha soberana. Desceu sobre a menina um pássaro azul, brincou com ela, cantou, se foi.
Uma delicada borboleta, toda vez que a tocava, fazia nascer uma flor ou um ramo de erva aromático em seu corpinho de minúsculas protuberâncias mulher.
Sentiu pela menina um amor que nunca suspeitara existir, amor esse que fazia do seu amor pelos filhos apenas um triste rebuço de amor. Aquilo sim era amor, mais que compreender, ela afinal sentira o amor.
- Quem é essa pessoa que você está esperando?
- Ela passa todos os dias por aqui, mas como está sempre muito preocupada não olha para mim, e quando, de alguma forma muito discreta me vê, foge apavorada como se eu fosse um fruto proibido.
- Mas que loucura!
- É, e toda vez que ela foge de mim tenta compensar sua dor fazendo de conta que precisa de outras pessoas para não sentir-se só, e isso a faz muito frustrada e ressentida.
- Mas você é tão doce, quem tiver sua amizade, não precisa de mais nada, apenas de você e sua delicada amizade.
A menina ficou muito feliz, brilhou enormemente ao ouvir aquelas confortadoras palavras de Vera. Sua felicidade foi tão grande que perguntou:
- Vamos jogar pingue-pongue e depois amarelinha?
Vera ficou surpresa, e se perguntou: ''Como essa linda menina sabe que eu adorava jogar pingue-pongue e amarelinha quando criança''.
Quando, no chão do asfalto, jogava pingue-pongue com sua amiguinha, ouve um latido e vê surgir Belinha, sua amada cachorrinha que fora roubada, fazendo-a sofrer terrivelmente com a enorme perda.
Catou Belinha no colo, abraçou-a, beijou-a, deixou-se lamber, acariciar-se, chorando copiosamente o retorno da sua tão amada Belinha, a tanto e tanto perdida.
Belinha! A cinza, pequenina Belinha, brincava muito feliz no colo da sua ''dona'', como a mostrar que também sofrera por tão longa e ''injusta'' separação.
Sem nada premeditar, lembrou-se das tristezas e alegrias que teve na infância, dos gloriosos dias em que conheceu o homem que escolhera para seu marido, percebendo enfim que, no fundo, não fora ele o culpado por sua vida não ter dado certo, pois jogou nele toda uma expectativa de felicidade que ele, por melhor que fosse jamais poderia cumprir, pois dependia dela, só dela, ser feliz e conservar seus lindos dias de amor e paz em si, nunca, jamais, em ninguém, senão nela própria.
Todas as cicatrizes impostas pela vida não foram culpa de ninguém, nem dela, mas agora a lição fora assimilada, fazendo surgir nela, um ressurgir Mulher, sem precisar fugir de nada, sobretudo dela própria, em sua essência e raiz Mulher.
- Já vai?
- Preciso ir.
- Vai fugir de mim novamente? Se de novo me negar, eu também a negarei!
Virou-se meio assustada, tudo ofuscou, Belinha desaparecera como viera, o amor murchou:
- Quê...!? Que é você?
A menina fez-se lindíssima mulher e seus enormes olhos azuis de Eva responderam:
- Eu sou você, Vera!
A revelação despejou-se como ducha de água fria em si. Compreendera afinal que só seria feliz se não mais ignorasse a si mesma e sua condição, fazendo com que, ao longo do tempo, a doce menina se transformasse na mais bela mulher que sempre desejara ser, adquirindo, enfim, sua maturidade de ser quem sempre foi.
CARLOS ALBERTO CURY HARFUCH é funcionário da Editora da Universidade Estadual de Londrina (Eduel) e tem publicado o livro ''Senhores das Sombras - A Intimidade do Dominador, Seu Pensamento, Seus Movimentos''. A crônica acima é o capítulo 8 do seu livro em formação ''Ela, só Eva!''


