CRÔNICAS - Raio
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
André Simões 
Estava correndo para chegar ao bar, caía uma chuva tremenda; quando cruzava o estacionamento, um raio cortou o céu e caiu a uns 15 metros de minha frágil pessoa. Fiquei assustadíssimo, evidentemente, nunca havia presenciado tal espetáculo da natureza de maneira tão próxima: um clarão enorme, faíscas saindo do chão. Estanquei na hora e olhei pasme para a cara de minha amiga, que me tranquilizou com o clássico ''Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar''. Sim, mas nada impedia que caísse uns dez metros para trás, onde estávamos agora.
Tratei de entrar logo, na esperança de que a velha casa de madeira fosse abrigo mais seguro. Contei para todos os conhecidos, ainda mais pálido do que em minha convencional cor desbotada, de minha intensa experiência, da noção de fragilidade da vida, da impotência humana diante do imponderável. Não sei se a falta de interesse era com minha vida ou com o raio - talvez ambos -, mas o pungente relato não os impressionou. O máximo conseguido foi arrebatar um ''Que massa!'' de um sujeito que nunca havia visto mais gordo e por acaso ouviu a história.
Em casa certamente dariam valor a minha experiência transcendental. Introduzi com um infalível ''Você não sabe o que aconteceu'' e me pus a narrar o caso para minha mãe, que ouviu com toda a atenção para depois sentenciar, definitiva:
- Esses bares são um perigo.
- Mas mãe, que tem a ver o bar? O que interessa é que um raio caiu na minha frente, poderia ter sido em qualquer outro lugar...
- São um perigo, nada de bom acontece nesses antros - e se retirou para seus afazeres, convicta da periculosidade dos bares.
Estava arrasado com a situação; quando já ia me trancando no banheiro para chorar, alguém finalmente pareceu mostrar empatia:
- Como é essa história que você estava contando para sua mãe, filho? Um raio?
- É, pai. Eu estava chegando no bar, no estacionamento, e um raio resolve cair a uns 15 metros de distância, faísca e tudo, fiquei de cara...
- Então, André, deixa eu te explicar. Na verdade, os raios não caem, eles sobem, por um desequilíbrio entre as cargas positivas dispersas na base da nuvem e os elétrons espalhados na Terra. São os elétrons que fluem, procurando o caminho de menor resistência elétrica. Como o clarão é mais alto em cima, a impressão que se tem...
- Tá, tudo bem, mas é que o raio caiu...
- Subiu.
Desisti. E fui para o meu quarto, imune a raios que sobem ou descem, longe das chuvas, do perigo, do trovão.
ANDRÉ SIMÕES é jornalista em Londrina


