CRÔNICAS - Quando um filho morre
Uma mãe jamais será capaz de dizer adeus a seu filho morto. Ela pode velá-lo, se esvair em lágrimas e perder todas as forças. O sol pode nunca mais voltar a brilhar, a alegria pode deixar de ser um sentimento em seu peito. Mas o adeus jamais vai se concretizar.
E não precisa. Porque o que ela enterra é somente o corpo físico do filho. Uma parte importante, claro, e que foi gerada (e alimentada, no início) a partir de seu próprio corpo. Mas que leva apenas os verbos que poderiam se concretizar brincar, afagar, se preocupar, proteger, ralhar, se preocupar de novo (porque a preocupação dá mais cor aos outros verbos) e que se resumem em: conviver e compartilhar.
Não haverá novas experiências, não haverá a admiração e o orgulho com as novas conquistas - com as quais a mãe sonha desde antes de engravidar. Não haverá o filho maduro, reconhecendo como foi importante a estrutura recebida dos pais da maneira mais bonita: repassando agora para seus próprios filhos. E, com isso, parece que o ciclo da vida foi interrompido.
Mas não foi. Porque a mãe carregará para sempre esse filho. Se não terá mais os verbos, os sentimentos continuarão intactos por toda a vida. E podem crescer, por que não?
A mãe que perde um filho, apenas por sobreviver a essa provação, ensina à humanidade uma lição sobre o amor que de nenhuma outra forma poderia ser ensinada. O amor onipresente, incondicional. E, mais do que nunca, eterno no amor por sua mãe que o filho carrega consigo para o céu.
Adriana Ito é editora da Folha2 e escreveu este texto pensando nas mães do João Pedro, do Mateus, da Sofia e do Rodrigo. E do Bernardo
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





