O dia era 24 de novembro. O ano era 1995. Uma bela manhã de sol, prenúncio de um dia lindo e realizador, afinal iríamos ficar para sempre na história do colégio.
Ao ler o jornal de hoje, uma matéria me fez lembrar dos tempos em que estudava no Primeiro Grau. Quando li a manchete abordando as fechaduras entupidas com cola e fios de metal na greve do funcionalismo municipal de Londrina, aí que minhas recordações ficaram mais evidentes.
O ano era 1995. Estava na 8 série. A escola era particular e pior, um educandário. Freiras severas e uma diretora mal-humorada. Nesse colégio estudei desde os 6 anos de idade e pretendia terminar o Ensino Fundamental.
Nossa turma era até certo ponto comportada, o máximo que tínhamos feito até aquela série era quebrar algumas vidraças. Mas aquele ano era especial. Nós iríamos nos formar e queríamos deixar nossos nomes na história do colégio.
A primeira ''arte'' do ano foi colocar o cesto de lixo cheio de xixi em cima da porta semi-aberta do banheiro. Imaginem o resultado. O primeiro a entrar no banheiro, levou um belo banho de urina, e nós, só para começarmos bem o ano, fomos ter uma conversinha com a diretora - a mal-humorada.
Passada a primeira bronca das muitas que ainda iríamos levar, começamos a bolar o plano da segunda ''arte''. O mês era maio, mas nossas cabeças já estavam em junho, época de festas juninas e de bombas, fogos de artifício.
Compramos uma bomba e, por sinal, uma baita bomba, o cigarro e as fitas adesivas. O plano era simples, armar a bomba dentro do cigarro, fazendo a chamada bomba-relógio, sem que ninguém imaginasse quem eram os autores da façanha. Colocamos a bomba no cigarro, pregamos embaixo de um tambor gigante de lixo e fomos para a sala de aula. Passados uns dez minutos, ouvimos a explosão e com a maior cara de pau saímos para ver o acontecido.
Para variar, fomos pegos. Ao armarmos a bomba, esquecemos de olhar quem estava no pátio e para o nosso azar, uma servente corneta nos dedou. Novamente fomos para a sala da diretora - a mal-humorada - só que desta vez a ''dura'' foi maior e a advertência encaminhada para casa. Depois disso, a turma deu uma sossegada, também depois da advertência e do chá de língua que levamos....
Mas a pior ''arte'' ainda estava por vir. Nos meses de agosto, setembro e outubro surgiram vários planos mirabolantes, porém nenhum semelhante ao que surgiu em novembro. Finalmente, realizaríamos um feito que ficaria marcado para sempre em nossas memórias e na escola.
A organização foi de primeira. Os materiais foram comprados em vários lugares da cidade e até em cidades vizinhas. O plano foi feito - minuciosamente - pois não poderíamos errar em nossa última tentativa.
O dia era 24 de novembro. O ano já citei na abertura do texto. Uma bela manhã de sol, prenúncio de um dia lindo e realizador, afinal iríamos ficar para sempre na história do colégio.
Acordamos mais cedo e fomos para a escola. Exatamente às 6h30, todos estavam na frente do colégio e a operação ''Tranca-Freira'' estava começando. O plano era trancar todas as entradas da escola com cadeados que somente nós tínhamos a chave.
As irmãs não conseguiram sair do colégio. Os alunos e professores não conseguiram entrar. E nós? Protestamos juntamente com os outros alunos e professores a falta de respeito de nos deixar do lado de fora - sem que ninguém desconfiasse da nossa armação.
No fundo, muitas risadas escondidas que duraram meia hora. Graças a um vizinho da escola, que quebrou todos os cadeados, os alunos puderam entrar e as freiras - destrancadas - nos olharam com cara feia e desconfiadas. Desta vez, elas não nos pegaram e entramos para a história do colégio sem que ninguém soubesse da armação, nem a diretora - a mal-humorada.

RAFAEL BAROSSI é jornalista em Uraí e teve uma crônica escolhida para a prova de língua portuguesa do ''Concurso ao Curso de Formação de Sargentos QPE-2007'' de Minas Gerais

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