CRÔNICAS - O assobio do porteiro
Um bom porteiro sabe assobiar. Todo porteiro que é bom assobia bem. Há um compromisso moral e implícito entre os porteiros que é assobiar quando o céu se avermelha. E então, feito os galos do poeta João Cabral que juntos tecem a manhã, a cadência dos assobios se entrelaça, prédio por prédio, até formar-se um tecido espesso e aveludado no horizonte. E subitamente todos se recolhem. Mas não, não há baixeza neste ato de virar as costas, jamais! Todo bom porteiro varre sua calçada como se fosse o guardião do céu. A vassoura acompanha o ritmo do assobio. Há serenidade no olhar do porteiro sobre as folhas secas da calçada. É outonal o olhar do porteiro. Há nostalgia. Há sobretudo honra nesse olhar. Por isso todo bom porteiro é silencioso. Porque ele é incólume. Porque assobia. Porém, há palavras guardadas, caso necessário. Há outras guaritas à espera de novos assobios.
Um bom porteiro sabe quando negar. Porque todo bom porteiro carrega a dose de desilusão necessária, o cumprimento oblíquo, o cigarro solto comprado no bar da esquina antes ou depois do turno. Sim, há uma negação árida na face do porteiro iluminada pela luz amarelada da guarita. Não quer participar desse circo que é o mundo lá fora, não quer entrar nesse coliseu. Por isso o porteiro se recolhe e se basta dentro da guarita. Por isso ele assobia, porque todo bom porteiro se basta. Todo bom porteiro se basta na sua calça preta e impessoal. É só uma calça, não há símbolos; estes ficam por conta de um sorriso familiar que aguarda ansioso o retornar para a casa da calça impessoal. Todo bom porteiro é reservado quanto ao seu coração clandestino. O sapato preto irretocável, rigoroso na disciplina, com linhas simétricas, disfarça o pão doce, o café melado todo porteiro que é bom toma café melado... -, e o florido da tolha de mesa.
Todo bom porteiro sabe separar as coisas; ele nasceu nato pra isso, abrindo e fechando portas, equilibrando-se entre as fronteiras. Todo bom porteiro sabe guardar segredos e contar causos. Nunca vê o que deve, sempre ouve o que não deve e fala o que não sabe.
Todo bom porteiro reconhece outro na rua. Não, não há saudosismo entre os porteiros. Os olhares são testemunhos, o aperto de mão é uma senha e o pacto de chegar dez minutos antes da troca de turno é subentendido.
Todo bom porteiro sabe que o tempo urge. Por isso é porteiro. Por isso entrou no mundo pela porta dos fundos. Por isso é inabalável, eterno. Por isso assobia.
Rodrigo Moreno é jornalista e porteiro em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





