Estava me lembrando do nosso último almoço de Natal, na cada vez mais apertada área da casa da minha sogra: toda a família - em oposição à área, a cada ano maior - reunida sob a sombra fresca e generosa do quintal de jabuticabeiras, rindo, se abraçando, contando de suas aventuras, trocando novidades e segredos... Uma orquestra barulhenta, porém afinada, que soltava seus acordes para o céu sem nuvens. As travessas cheirosas e enfeitadas sobre as mesas, talheres tilintando, guardanapos a postos no colo e no peito ou, feito pombas, voando de uma mão para outra, o refrigerante borbulhando em copos de todas as formas e tamanhos. O estouro das garrafas de champagne, as crianças correndo pelos quartos e o jardim, impacientes, com fome de sorvete e bolo... O macarrão da avó, o pavê da tia, o nhoque da cunhada, o pernil assado do tio Luiz, meu frango com manteiga e shoyu... Logo, a costumeira brincadeira com os presentes, os nomes embaixo das cadeiras, o sorteio, as trocas, aquela caixa de bombons que todo mundo cobiça, o guarda-chuvas preto que ninguém quer...
E eu, em meio a toda esta algaravia e movimento, sentada num banco junto à parede na porta da agitada e fragrante cozinha, deixo por um momento os talheres no prato e o copo com refrigerante na mesa mais próxima e paro para olhar em minha volta. Mas paro mesmo, me afasto dos acontecimentos e contemplo a cena, os rostos, os gestos, escuto as vozes rindo, cantando, contando as suas histórias e compartilhando sucessos e planos, sinto aquele calor tão humano e tão sincero, aquela alegria da comunhão, do bem-querer, da cumplicidade. Aquele barulho espontâneo, infantil, sem receios ou disfarces me envolve, e naquele momento me sinto profundamente grata e comovida por esta percepção, por este ''fazer parte'' do quadro, do instante da celebração não só do Natal, mas da família, do encontro, da unidade. Eu faço mesmo parte da fotografia! Estou no meio desta agente amorosa e acolhedora, sem preconceitos, desta família que está crescendo e envelhecendo junta, partilhando os nascimentos, os crescimentos e as velhices de cada um sem receios ou inseguranças. Todos são bem-vindos!... Esta gente sabe o valor e o peso que uma família tem na vida de seus integrantes, pois se não pertencemos a uma família pertencemos aonde, a quem?...
O universo mais verdadeiro no qual nos movemos ao longo da nossa existência é o da nossa família, e é tão importante que tentamos reproduzi-lo e vivenciá-lo em todos os lugares e situações pelos quais passamos e com todas as pessoas que encontramos. Queremos o lar, o sustento, a partilha. O almejamos e recebemos dos nossos pais e o damos e ensinamos aos nossos filhos e amigos.
O lar - as pessoas que o constituem - é o núcleo, a base, o alicerce do qual decolamos e para onde retornamos; é a marca, a herança, a história. E olhando para essa gente naquele almoço de Natal, percebi que incorporei meu lar ancestral e atual a este outro, e que depois o lar dos meus filhos se incorporaria ao meu, e assim por diante. Todos somos pais, todos somos filhos, e o lar de todos é a história da humanidade e o coração de Deus.

PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora; em 2000 participou da antologia da Editora Litteris ''Grandes Escritores do Cone Sul'', com o conto ''A estrela e primeiro sábio''

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