O fato aconteceu comigo na década de sessenta, época em que morava em São Paulo. Como engenheiro responsável de uma empresa de prestação de serviços de engenharia, estava eu naquela manhã na minha área de trabalho. Da minha sala podia avistar o prédio da biblioteca pública da cidade, na Rua da Consolação.
A secretária me avisou que uma pessoa que acabara de chegar queria falar comigo. Disse-me que era vendedor de enciclopédia em inglês. Embora não estivesse necessitando, por um momento de bobeira, respondi que aceitava recebê-lo.
Ele era uma pessoa muito estranha, um senhor de estatura baixa, vestindo terno e gravata, óculos de aro redondo na face, cicatriz enorme na cabeça inteiramente calva, e falando um português com sotaque europeu.
Diante da minha cara de espanto, ele explicou que era judeu e que fugira da Polônia durante a Segunda Guerra. A profissão que exercera naquele país era de economista, segundo o vendedor falante que não parava de manejar uma caneta. Isso me incomodava, mas achei que era um tique nervoso.
Com a caneta sempre na mão, ele apresentou o seu produto: uma "Encyclopedia International" editada pela Grolier, nos EUA, e composta por 20 volumes. Preço: quase o meu salário de um mês!
Falando como uma metralhadora, balançando a caneta ele me convenceu que, como engenheiro a enciclopédia em inglês era essencial à minha profissão. Eu também achei que era necessário, mas o preço estava além da minha conta... Como iria explicar em casa que gastei quase o meu salário em livros, ainda mais em inglês!
Olha, não sei como aconteceu, mas quando me dei por conta já havia assinado a proposta de compra pagável em doze meses, e achava que tinha feito um bom negócio, para o meu futuro... Não parece um "Conto do Vigário"?
Não me lembro como me virei em casa para justificar a minha extravagância, principalmente porque na época nem falava fluentemente a língua inglesa.
Sabe de uma coisa? A enciclopédia foi muito útil para mim, e continua sendo, consulto-a frequentemente mesmo com o advento da internet.
Agora vou confessar uma coisa: depois da compra fiquei sabendo que, o que parecia ser um tique nervoso, era uma técnica de venda... Espécie de hipnose...

*Toshio Icizuca é engenheiro e escritor em Piracicaba

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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